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Luanda das obras chinesas que desabam
E das outras que nunca mais acabam
Grande magia, os tugas são angolanos
E os mwangolés extraterrestres marcianos

Luanda a cidade da morte dos geradores
Não dá para viver nos prédios aterradores
Os gases da morte deixam tudo gaseado
Da bandidagem dos assaltos tudo cercado
Do fumo do poder em pânico envenenado

E eis o hediondo e programado plano
Estrangularem-nos ano após ano
Para que dependamos dos estrangeiros
E aqui e ali só cheira a colonos corriqueiros

São muitos com o mínimo de poder
Que podem eliminar quem lhes apetecer
E o que verdadeiramente nunca sabemos
É a desgraça de quando água e luz teremos

A vida dos colonos está sempre a melhorar
Com o dinheiro que andam a nos roubar
E nos tentáculos desta diabólica governação
A intolerância política é a arma da dominação

Quando os estrangeiros não nos deixam viver
Nas nossas casas não conseguimos sobreviver
Defender-nos-emos com as armas a tinir
E quem está fora da lei tem que se punir
Não dá ver milhões a chorar e alguns a sorrir

Só os estrangeiros têm direito às cantinas
E do serviço sexual das nossas queridinhas
Os cafés e restaurantes são dos portugueses
A terra angolana já não é dos camponeses

Alguns da oposição não têm nada de santos
Prometem-nos palavras por todos os cantos
De um país que vive em permanente conjura
Qualquer está sujeito à tortura e à clausura

Na Angola, Sarl só o petróleo lhes interessa
No neocolonialismo matam-nos depressa
Somos cobaias humanas para experiências
Das actividades internacionais das potências

E ficaremos com um presidente chinês
Não muito depois um presidente português
E ajoelhados para o chicote outra vez
Submissos e órfãos do império da malvadez

A opressão chinesa e portuguesa
São já uma indubitável certeza
Dividem entre eles a riqueza
Para a população o PIB da pobreza

Upanixade – Gil Gonçalves

 

O assalto a uma empresa rendeu-lhe cerca de quatro milhões de kwanzas, mas alguém anotou a matrícula da motorizada do jovem assaltante. Não foi difícil a sua localização pela Polícia. Dois indigitados fardados vão na missão do cumprimento do seu dever. Na morada onde a motorizada estaciona abordam um jovem que se identifica como sobrinho, que bem aprisionado desvenda o esconderijo do tio assaltante. Os polícias capturam-no, encontram o dinheiro e livres de testemunhas enchem-no de balas. Depois na esquadra relatam que mataram o bandido porque ele resistiu-lhes com bravura. E o comandante quis saber do dinheiro, claro, e eles: «não vimos, não sabemos de nada, o dinheiro desapareceu».

Na senzala, as senzaleiras espevitam-se. Elas e os ratos naufragam na pequenez da ruela esfrangalhada. Uma senzaleira sem tempo para se coçar encosta-se no restante tapume. Concerta a carapinha, ajeita o pano, enxota as moscas com a vassoura de mateba. Apela excitada:

– Que vergonha meu Deus! Ó caçulinha da mamã traz a escova e a pasta de dentes! Vou entrevistar-se na rádio!

À velocidade de super-mulher os dentes cariados são escovados. O dentífrico não cumpriu a sua missão porque não se notou mudança no alvar dental. Era de fabrico ocioso, clone chinês. O repórter batia com o pé no chão, pressionado pelos estúdios que queriam e não sabiam se deviam despejar o saco da publicidade para o vácuo. A dama encima o hálito renovado no microfone.

– Prontos! Posso dentar!

– Minha senhora, bom dia!

– Sim, bom dia!

– Como se chama?

– Teresa Maka.

– Tanta comoção, porquê?

– Desde as quatro matinais que estamos com isto, desconseguimos mais nos dormir.

Estampa-se tiroteio. A ruela força-se, abala-se com a rusga pessoal e impessoal. Os desordenados saltam como coelhos na demanda das luras, perseguidos por caçadores do defeso. A senhora, à fula exclama maldizente:

– Ah, já chegou a política Politburo!

Os perseguidores dos ideais da lei, homens nascidos, crescidos, educados e com históricos tiroteios contínuos rebaptizados, calejados nos dedos indicadores, movem-se como gatos retesados de salto sobre os ratos. O oficial, aprumado, nivela por baixo o zelo da leitura dinâmica da lei. Tem o hábito de perguntar. Sem perguntas, sem interrogatórios não é possível cumprir a lei. Interroga a Teresa Maka que está com a esperança renascida.

– Esse estupefaciente está drogado?

– É… é memo!

– Está a tirotear assim porquê?

– Quando engatilha, diz que se liquida.

– Inda não se matou? É pena!

Os polícias estão oásicos, agradáveis, bem acomodados em seguras trincheiras. Não intentam ofensiva. Teresa Maka exaspera-se:

– Estão a me estressar, avancem, lhe apanhem!!!

– Estás maluca ó quê? Não quero ser balado!

– Ah, afinal vocês têm medo da pistolada?!

– Absolutamente!… Sim… não… não é isso… estamos à espera que o gajo se distraia, ou adormeça, depois enchemo-lo de buracos. Garantidamente que tem o tempo contado, não se lembrará do registo de nascimento. Lembrar-se-á do dia em que morreu.

Mentor, social e religiosamente aprecia factual:

– É a civilização da bala no cumprimento do seu destino. O mais fácil que existe, e não são necessários cursos, escolas, universidades… é carregar no gatilho. A nossa civilização e as nossas vidas dependem apenas de um dedo encostado no gatilho de uma arma. São as armas que decidem o nosso futuro. Qualquer de nós arrisca-se a cada momento no mau caminho. Sem humanismo a vida não tem sentido. Os nossos sonhos dourados, desejados, desaparecem nos anseios de um qualquer com qualquer arma.

Onde há muitos seguranças é porque há muita insegurança. São estátuas humanas empertigadas para segurar o que se rouba, o que não se dá aos esfomeados. Parei junto a dois deles, ouvi diálogo edificante.

– … Filmei tudo! Mandaram-me lá fazer serviço de emergência nessa noite.

– Põe no play.

– Porra! Custa aceitar.

– Oh, fala lá meu!

– Nunca pensei ficar assim destoado.

– Que coisa? Já estou desassossegado!

– Foi na Ilha de Luanda… casais… de marido e mulher. Elas afastavam-se a porem os pés na estrada, como leoas berrantes que atraem a caça noctívaga. Os carros paravam com olhos de lince, surripiavam uma, o marido esfregava as mãos de contente, aclamava feliz: «já levaram a minha! Já levaram a minha!». Quando a outra se contentava, estava com sorte, o consorte rejubilava: «Hoje vou encaixar cerveja!». Elas faziam rapidinhas o serviço social, e entesouravam nos maridos.

– Eh! Eh! Bem feito! Acreditámos nas promessas do Politburo… vamos enfastiar-nos de colonizadores.

– Ó meu, novos colonizadores novas linguagens.

– E eles sabem falar a nossa língua?

– Não! Temos que aprender a língua deles.

– E vamos ter tempo para estudar tantas línguas?!

– Para quê? Temos a linguagem corporal.

Para ferverem as mágoas do sistema nervoso central, cumpliciaram numa bebida transparente que uma vendedora esquinava.

– Senhora passa aí duas bombas!

São dois saquinhos de plástico transparentes. Bem visíveis saltam letras maiúsculas: Bad Whiskey. 43% Volume. Rápidos entornaram a uíscada pelo túnel estomacal. O lirismo invadiu-os. Descolaram mais dois saquinhos que emborcaram. Os desejos reprimidos extravasaram.

– Porra pá! Esta merda é demais!

– Puta que o pariu!

– Hum, se alguém me chata, vamos se matar!

– Apetece-me uma pistolada!

– Eu também!

– Vamos se torrar!

As palavras espumavam bucais nos antes pacatos servidores dos bens alheios. A desfaçatez estonteou-os.

– Ó senhora bombeia mais dois, pagamos amanhã!

– Já estão admirados, desestruturados, os olhos orbitados… não vão reassegurar a empresa?

– Quero lá saber da empresa!

– Vamos se encostar no quarto mundo do passado, no presente, sem futuro.

 

As minhas passadas seguem o habitual ritmo compassado da luta continua… do cantar de José Afonso:

Ó cantador alegre

Que é da tua alegria?

Tens tanto para andar

E a noite está tão fria

Degeneração moral é vista como inevitável na ausência de controlos sociais contra ganância e competição. William Golding (1911-1993)

O homem aprendeu a dominar, a piorar, amarrou a Natureza. Julgou-a como um banco de fundos ilimitados. Saques, saques a fundos perdidos. Finalmente abandonou-a, divorciou-se, desamou-a. A Natureza domina o homem, ele surge nela como planta daninha. Está a mais, não faz parte da equipa. Deus criou os homens para divertimento. Sorri, vendo-os exterminarem-se com as armas que todos os dias inventam. Hipocritamente inventaram a esperança, a espera contínua da morte. Dizem carregados de profunda maldade, que é a ultima coisa que resta. É a maldade sem limites. Matam e depois choram os mortos.

Oh, esta saudade, esta tristeza do alvor da perdida Natureza.

Para quê tantos instrumentos sofisticados, se basta observar formigas para prever as inclemências do tempo que nos desassossegam.

Desentendo porquê os seres humanos estão sempre muito ocupados. Falta-lhes tempo para observarem uma árvore.

As religiões estão ultrapassadas, nada mais têm a desdizer, temos que as substituir por aquelas que amam a Natureza.

O alarde altipotente: vamos trabalhar, viver, conviver diariamente com a hipocrisia e a vigarice? Não é possível desumanizar assim! Temos que refutar, reabituar, resgatar a insolvência da nossa sobrevivência. Lutar antes do entardecer. A limpeza de alma da Natureza ciclicamente destrói os homens. Poupa alguns para recomeçar o ciclo do deixar o circo pegar fogo. Os elementos da Natureza conscientizam-se: eis que retomam a multiplicação, um nunca acaba, vão hostilizar, cometer as atrocidades anteriores arquivadas no déjà-vu. Quanto baste, acabamos com eles.

 

blog_Gil_Goncalves_UpanixadeUpanixade – Gil Gonçalves

 

E estes libertadores libertaram tudo, excepto Angola que ainda não se libertou da tirania deles.

O segurança com olhos de falcão viu um gatuno a romper a cerca do armazém e deu-lhe um tiro de chofre na cabeça. Ele e demais colegas informaram a polícia, que chega e de modo expedito iniciam a carga das suas duas viaturas com caixas de cerveja. No final os seguranças carregaram o cadáver para a morgue.

As atiradoras são mais rápidas que o vento. Fazem lançamentos como no jogo das escondidas. São finas como ratos na madrugada. Desalentam-se saberem bem ou certo, é mais fácil assim. Nas varandas preparam a comida, desajeitam-se em deitar a água suja na pia. Escolhem o caminho preguiçoso. O entupimento séptico está na Média. Tudo porta a fora.

Revejo as lâmpadas acesas dia e noite. A energia parece gratuita, ninguém assume pagar, ou os Jingola têm cegueira diurna. Estudam o manual de como desperdiçar energia facilmente, que é distribuído gratuitamente. Há intenção de não querer saber, ninguém requerer atenção ao outro. O chamamento de antemão é entonado, destoado: «não chateia pá!» Na insistência segredam: «deixa-o falar, vai-se cansar!».

– Maremoto conduto!!!

– Não! É de moto-próprio!

 Assustei-me e desassustei-me. Mais uma conduta de água quebrou-se, rompeu-se. A água liberta da prisão jaz caudalosa, persegue os interstícios do solo desestabilizado. Concebe uma via rápida com cratera. O rio chegado arreda coisas e pessoas. A visita líquida é desejada pelas crianças que se fantasiam de rãs e sapos. Atiçam-se:

– Vamos brincar no rio das condutas!

Um mais crescido, taciturno, explica solenemente à criançada:

– Chama-se rio das condutas porque tem nascentes em todo o lado, mas ninguém sabe explicar onde nasce.

Um poeta de última geração é rimado pelo ritmo caudal. Refaz-se, impoluto rebrilha o cabedal dos sapatos nos intervalos da calçada. Processa cantante:

 Nesta planície de petróleo jorrante dos jactantes

de sol e solo exuberantes. Descontraídos novos-ricos cativantes

de desconstruídos, expectantes currais eleitorais errantes

Requisitados, mal abençoados pela natureza Humana

De festeiros participativos 24 sobre 24 horas

Que fortaleza tem esta tristeza! Viver na extrema pobreza!

Muitos… milhares, milhões de jovens deambulam. A facturação dos biliões petrolíferos sobe, o desemprego também. Novas ruas novos nomes: ruas dos desempregados, apinhados. Futuros continuadores da involução Jingola. Sem estudos, sem ciências humanas, morais e sociais. Apoiados por pretensa ciência, lentes na ciência penitenciária. Futuros trapeiros patriotas, neófitos vendedores de tralhas para aquecer. Os cavaleiros andantes nas justas pela libertação descuidaram brechas da neocolonização. Olvidaram o buraco negro da aldeia global, a senda triste da eterna escravidão neocolonialista.

Pode-se ruminar que não há emprego para ninguém. É constante noticiar mais desemprego. Despedidos porque a empresa faliu, ou há trabalhadores a mais. Mil e uma estratégia sem lei nem rei para trabalhadores autónomos, que do pé para a mão, vão para o olho da rua. Os Jingola lixados emparceiram com rebuçados, bolachas, cigarros e cacarecos que as esposas remendam. No mar de lama da magnitude da globalização empresarial, peixe graúdo abocanha peixe a miúdo.

O polícia monta guarda num mercado de rua. De vez em quando volteia, passeia, pára. De olhar frouxo repara, enquanto descansa o peso dos braços nas mãos enlaçadas, nas costas coladas. Está armado e equipado. O telemóvel espalha sem som nem tom o seleccionado timbre horripilante arquivado. À velocidade de cágado dormente desenlaça uma mão, solta o telemóvel da cintura, petrifica-se. Está colocado pelos Órfãos.

– Passa o telemóvel!!!

É um dia de juízo para a polícia. Chegou um carro patrulha com seis polícias diligentes. Apeados, encafuam-se nas ruelas. Um tenro Órfão alarma a combinação. Culpados e inocentes dão nos cascos. A terra freme como cavalos de corrida num hipódromo. Os incansáveis vigilantes dos dias e das noites, polícia não dorme, não é?!, aprofundam-se, aferram-se nos labirintos. A missão seja ela qual for, é sempre para repor a legalidade.

Enquanto aguarda pelo restabelecimento da lei, o motorista afunda-se no assento com as mãos na nuca. Ficou pachorrenta sentinela na viatura. Atira uns réditos para uma donzela bem nutrida de carnes frescas. Ela não dá cavaco. O vencimento de polícia está num escalão tão baixo que não dá para comprar um sutiã, quanto mais um biquíni. Ela pisca-lhe os olhos com tal intensidade que parece que o circuito de voltagem óptico se desregulou. Ele não entende a mensagem semafórica, acredita que ela está no ponto nevrálgico. A carne quente dele rejubila, solta o verbo.

– Estamos muito quentes, vem, vamos arder!

– Seu burro! Os bombeiros chegaram….

Os Órfãos chegaram, cercaram-no à má cara. Crianças com armas de guerra aperradas, e armas brancas afiadas, dos filmes imitadas, cópias de segurança efectuadas. Ainda não têm noção do matar, do coração parar. Por isso matam, como se fosse a brincar. No abandono da inocência pedem meças:

– Sai daí, vamos dar uma volta, depois regressamos.

E foram no popó da polícia dar umas voltas pela cidade com as deselegantes da mesma idade.

– Mentor, este conflito entre Órfãos e Politburo permanecerá por milhares de anos.

– Dou o meu acórdão. Nalguns bairros os Órfãos disputam a invisível força armada da defesa civil militarizada. Sem abrir concurso, os Órfãos impõem sessão de cinema até à matina.

 Continuo na travessia das endechas do Homo oeconomicus.

Cooperadores discutiam, não se entendiam. Antes, juntaram-se e consagraram uma cooperativa habitacional. Imaginaram, levantaram habitações cooperativistas. A felicidade eterna nasceu-lhes nos rostos, sentiam-se notáveis. Faziam bom rosto à fortuna. Nas janelas à francesa os casais extasiados vigiavam a filharada que brincava a ter futuro. Tranquilidade absoluta garantida por seguranças privados, armados. Era mais que um jardim, um botânico e outro das delícias. Passaram à história o paradoxo do amor, roubaram o tempo de antena para amar. O casario era embarcação de vento em popa

Começou-lhes a dar o vento no rosto. Atingidos pela magia negra apressada restaram descorados, mitómanos, tensos, enfeitiçados, hipertensos… ficaram a ver navios. Casas construídas em menos de dois anos desfaziam-se aos pedaços. Fendas nas paredes utilizadas para cabeças estreitarem os íntimos lares. Inventou-se a hipótese que dantes o local foi cemitério. Persistiu-se na razão de Estado que os Jingola viviam, viveriam sempre em casebres.

– Mentor, esta magia é contagiosa?

– Muito! O Politburo apoiado pelos seus amigos estruturais de todo o mundo redouram os alicerces da democracia popular. Outra vez guerrear para aqui facturar. As guerras inventaram-se para alguns enriquecerem. Guerra… é o acto ou efeito de destruir, para depois reconstruir. São as filosofias da vida, das visões fantásticas dos canhões que disparam o vinho de Cristo, que nos afogam ou banham em sangue. Suam-nos, que a espécie humana é um tremendo erro da Criação. O Criador errou na manipulação genética. Falseou a costela. Criou o Inferno para os bons e a Terra para os maus. Alguns bons escaparam do Inferno para a Terra. Actualmente lutam ferozmente… luta desigual porque há muito sofrimento, muita miséria, muita fome. Os bons são poucos, os maus por enquanto ainda são muitos. Como alguém afirmou: Todos os Politburo sempre mentem.

– Mentor, antes de aqui cair molhei os pés na biblioteca de Baco. Li textos sobre os Jingola que me surpreenderam. Resumi-os:

Os Jingola odeiam as pessoas, comparam-nas a cães e gatos porque detestam estes animais. Gostam de ratos, da feitiçaria, de vírus e fantasmas. Aprenderam a não confiar em ninguém. O que mais odeiam é a sua sombra. Costumam afirmar que é uma assombração. Convictos, dizem que a inventaram, descobriram.

– Hum! Qualquer na sua superstição milenar vê sombras no seu quotidiano. É como levantar muito cedo, ir para o trabalho e voltar à noite a casa. Biliões de seres humanos desnotaram que os seus cérebros atrofiaram. Desconseguem pensar, e se intentam, lá aparece a mensagem na TV, porque é a primeira coisa que fazem quando chegam a casa. A mensagem é imutável: deitem-se, porque amanhã é dia de trabalho. Levantem-se, está na hora de ir para o trabalho. Exemplificam com um americano que afirma: nasci para enriquecer como empresário, ou ser um homem famoso, trabalhando muito consigo-o. Omitem que ele pouco ou nada dormia, e que acabou na psiquiatria, na psicologia com psicalgia, ou morreu de ataque cardíaco. São bibliotecas de ligação dinâmica, chegam ao trabalho com um chip embutido no cérebro. Muito submissos como a oposição Jingola, não incomodam, não pensam. Se algum consegue remover o chip, começa a pensar, revolta-se… exigindo melhores condições de pensamento. É logo acusado de senzaleiro das ideias incendiárias, não patriota e sumariamente julgado e para um gulag enviado.

– De revolta como Ulisses num gulag marítimo, porque Penélope transcende o amor. Ulisses vai amar na volta do mar

– Ao ir e voltar do trabalho no mar confuso, inúmeras horas irreversíveis são concedidas ao trânsito automóvel. E levantar às quatro, cinco da manhã… essas horas não são pagas. O trabalhador começa a trabalhar logo que se levanta da cama, isso deve ser-lhe pago.

– Não pagam porquê?

– Porque apenas existem quatro classes na sociedade. Presidente, ministro, director e os… lémures.

 

blog_Gil_Goncalves_UpanixadeUpanixade – Gil Gonçalves

 

O mais importante é destruir. E depois de lhe espoliarem o casebre – a razão do seu viver – a espoliada montou uma parca venda junto à porta dum prédio. Mas mesmo assim não conseguiu sobreviver, porque os defensores da autoridade espoliadora também lhe espoliaram o que lhe restava da sua vida. Agora tem como meta a prostituição do seu corpo, mas o seu espírito de revolta permanece bem latente, forte, determinado, sempre presente. O poder também costuma ser muito macabro para quem nele pretende deitar-se até à eternidade. E depois desse apogeu descem-se todos os degraus da baixeza, como o navio que quando independente navegava sempre para bombordo, agora perigosamente adernado navega para estibordo. Este é o método escolhido do suicídio governativo. É este navio carregado de fantasmas que ainda lhe chamam independência. E os fora-da-lei inundam-nos de decretos judiciários que nunca cumprem. Então, para quê a governação? E com o crime generalizado e não sancionado, revela bom gosto quem implanta este actual folclore da Somália. No fundo fingiem que não existem.

– Formulamos: Ab hoc et ab hac, que significa: por aqui e por ali : a torto e a direito. Vamos no seguro, seguramos, lavamos as torneiras e pulpitamos que as fontes governamentais purificaram-se… para que Dat veniam corvis, vexat censura columbas, que traduzido diz: A censura poupa os corvos e persegue as pombas.
– Os templos das memórias aquiescem mudos, soçobraremos sem mudança? Que as seitas cozinharam no pão do espírito?
– Claro! É o apanágio das seitas religiosas que vagueiam de noite como os gatos. Um tolo disfarçado de lobo visionário cunha um culto qualquer, enche os bolsos e vira empresário. O aproveitar da religião é sucesso para toda a vida, sabe porquê?
– Faz render o peixe!
– E livre de impostos.
– Sei que daria boa sacerdotisa, mas não me agrada.
– Na Veni, Vidi, Vici, há lugar para si, aceita?
– Não!
– Prefere morrer de fome na velhice?
– Não tenho coragem para enganar pessoas. Afinal não existe nenhuma diferença entre as igrejas e os políticos.
– Lwena, espoliada das noites e dos casebres… tanta demanda, tanto tempo perdido em vão à procura Dele…
– Dele?!…
– Sim! Sim! Do dinheiro, não é possível existir religião sem dinheiro. A riqueza monetária é a demanda do nosso Santo Graal. Por isso mesmo não aceitamos nem nunca ousaremos qualquer mudança nos nossos ritos. Nunca mudamos senão…
– Aparentemente mudam, mas na verdade não. Inventam-se constantemente novas tecnologias que dizem ser apropriadas para o humano. Curiosamente quanto mais sofisticadas são, a miséria e a fome acompanham-nas. Fico com a certeza que nunca vi tanta escravidão, tantas mortes silenciosas como hoje em dia. Se não houver mudanças, os esqueletos futuros serão arquivados nas enciclopédias de outras civilizações. Serão encontrados, estudados, como uma espécie desconhecida que passou pela Terra. Os investigadores dos tempos futuros trabalharão muito para descobrir, explicar, o enigma deste fenómeno humano.
Ouvi o coro transparente de vozes infantis ensaiarem um cântico de louvor a Deus. Um piano acompanhava-as. Vozes tranquilizantes no angelical Paraíso, alento para almas destroçadas. Magnificat para penetrar o espírito deificado. O Bispo do Fogo de Deus deixou-me. Foi a cantarolar, a sorrir como se fosse o homem mais feliz deste mundo. Juntou-se às crianças, afagou-as, abraçou-as, beijou-as, nublou-se de branco como no reino dos céus.
– Mentor… quanto mais me queimo no fogo das religiões, mais palhaça fico. Ah!.. se o perfume dos seus mortos queimados na impura aflição dessa religião saturasse as nossas consciências… mas as palavras crucificadas movem-se como o vento do deserto, sem ramagens para o acolher.
– Os possuídos pelo dinheiro constitucional não ganho ainda dão as cartas, jogam, fazem batota e nunca perdem. Os sem terra jogam na carta inconstitucional e perdem sempre.
– Sim, é a constituição da boa vida.
– É como um vírus de nível quatro que quando ataca, e está prestes a dizimar a população, pára porque não sobrevive sem portador. As igrejas são um vírus desse nível porque lutam para que os fiéis esfomeados não sucumbam. Sem essa mão-de-obra extinguem-se. Mas, as seitas religiosas adulteram, não panificam a religião. Inundam nos pães pobres de Cristo banalidades supersticiosas… poluição religiosa. Estes Estados são pessoas de bem nos píncaros do desenvolvimento científico. Entretanto, legalizam seitas religiosas que atentam a dignidade humana, a mais-valia da fome.
– Resta a religião natural do bombeiro abnegado que até falece para salvar o próximo. Os vivos permanecem, mas a memória dos bombeiros mortos não.

Dos largos anos do poder executivo ao reboliço do povo, do chover no molhado, vêm vivas incrementadas nos baldes com águas das lavagens das roupas e detritos das cozinhas. De atalaia, as militantes reincidentes continuam o despejo dos recipientes. Com técnica militante rudimentar mas funcional, promovem chuva ácida para arejar o ambiente. Ainda não aderiram aos comités de especialidade, ratificaram convenções locais sobre destruição presente. Sem princípios, meios, prestam os fins
Um carro apresta-se para interiorizar uma grávida, a amiga dela despede-se a cantar vitória:
– Faz boa viagem, não te esqueças, quando voltares traz-me as roupas da moda.
– Querida, tens que esperar aí uns quatro meses.
É neste estado interessante que as Politburo endinheiradas viajam para Olísipo, e lá rebentam, retornam. Não desejam que os filhos nasçam em Jingola, preferem-nos nacionais estrangeirados.

Como formigas obrigadas a desviarem-se dos obstáculos democráticos incipientes, as zungueiras flúem no trânsito popular ineficiente. As zungueiras são pobres clientes desta democracia ainda impopular que desafortunadas, a ela não concedem votos e devido a isso não recebem créditos. Esta rudimentar democracia é dos clientes Politburo VIP afortunados, com créditos. A democracia que aspergem legítima com actos ilegítimos, contrariando o direito de sobrevivência. Diviso a anunciação de sol a sol, da fuga desesperada do formigal mulherio. Os filhotes corcovam nos costados maternais. Os alguidares movem-se como navio agitado pela procela. As sem-pão param a prudente distância, a ver de que lado sopra o vento. Sem peitos para correrem, o imprevisto confronta-as, tentam fazer marcha-atrás, mas estão cercadas. Cacarejam, como galinhas acossadas por galo de briga. Como habitualmente em grande desaire, gritam como só mulher Jingola sabe:
– Os Ufolos!!! Os Ufolos!!! (Órfãos)
Quatro deles expeditos travam-se numa zungueira, dizem-lhe para repor o alguidar cheio de bolinhos como das outras vezes, no chão. Servem-se à vontade até o alguidar esvaziar e desandam à cata de novas presas. Algumas férteis em liderança desnotaram-se e conseguiram ludibriá-los. Depois da razia, unem-se e pedem contas à miséria. Os próximos dias serão acrescidos à lei marcial da fome. De semblante mais pesaroso e alguidares mais leves preparam-se para cavar. Para revender e comer terão que convencer financiadores o que não será fácil: «Você está maluca da cabeça, você ainda não pagou o que deve e queres mais?» elas defender-se-ão: «Empresta só amiguinha, vou pagando aos poucos.» O ultimato: «Não tenho mais dinheiro, porra!»
Esta selva humana é a mais traiçoeira, a mais perigosa, nela vale-tudo. Cada segundo um perigo espreita. Novos perigos, novas maldades. Mais predadores atentos para saltarem, golpearem. Mabecos de uniforme plantam-se no areal, recitam bestial. Novo pânico, aflição renovada:
– São os gatunos Politburo!
– Manas, vamos bazar!
– Como então!? Nos esvaziaram!
As escapadas do saque anterior armam disfarce. O convencimento não dá, os polícias Politburo são muito vivos, cangam as precisas escapadas da marabunta. Contestam, sabem que em vão:
– Moxi, os Ufolos. Iadi, vocês… vão naqueles dos armazéns!
– Absolutamente! Patrulhámos por lá, ficámos negativos. Ganhamos mal, mesmo assim não nos pagam. A fome esforça-nos à ração de combate.
– Vão no salu do Politburo!
– Eh pá! Onde há fome… salve-se quem puder!
– Jiboiados, salafrários, ordinários de merda!
– Cala a boca, te ensacamos na prisão correccional.
– É o quê? Com a minha bebé?!
– Absolutamente!
Os alegres samurais da lei ajeitam-se fotogénicos para a corrida. O chefe dá ordem. A chaparia, as rodas, assobiam arenosas. Lá vão de olhos na divisão dos despojos. As malfadadas restam-se no silêncio das maldições, enquanto as rodas da maldade vão longe da vista, longe dos corações. Os lamentos ocos repetem-se:
– Levanto ferro às quatro da manhã sem descontinuar, andar na lua da nevoenta luta continua. Demos-lhes o poder, proibiram-nos ler, ao longe sem comer.
– Amiguinha, é a filosofia anti-humanista dos novos-ricos da história da carochinha e das suas endechas: «Por excelência ao levitar pela manhã decido: qual vou lixar hoje? Se não o fizer, desconsideram-me, perdem-me o respeito, não sou chefe. Um príncipe real a toda a força deve estrangular a vida de outrem. Salutar, saboroso é destruir o destino dos que aspiram viver. Para obter bons negócios é importante aniquilar os amigos».

A minha longa jornada sucedia cuidada. Moscas, lixo, poças de águas imundas, buracos e assaltantes Ufolos à espreita. A Rádio Oráculo actualiza o numeral colérico: «Quarenta mil infectados e mil e quinhentos mortos.»
Apercebi-me, afastei-me, segurei-me. Vi alguém assomar-se num terceiro andar, e zás! O conteúdo dum alguidar é atirado. Que assomo! É água com restos de peixe. Remiro para cima, vejo o deserto.

blog_Gil_Goncalves_UpanixadeUpanixade – Gil Gonçalves

 

Tímida, face a face com um segurança precavido de nervosismo manual na coronha da pistola, de caubói que a insinua saltar da sua coxa.
Revivo a imagem do tempo saudoso da fronteira americana, do Billy the Kid, Jesse James, depois transportados para filmes. Ele sentia-se caubói, herói deste faroeste. O segurança escondeu-se na habitual desconfiança.
– Nome, raça e chipala tal e qual como está no bilhete de identidade. E vem falar com quem?
– Com o Bispo do Fogo de Deus.
– Falta o nome e a raça do bilhete de identidade!
– Lwena… a espoliada do petróleo.
– Não se mecha, não toque em nada e espere só um momento.
O portão preso de barras de aço importadas libertou-se. Aventurei-me para o interior, para lá do portão e descansei intramuros. Chegou-me uma pontada de mal-estar alimentada por dois cães que se movem. Ladram-me de improviso, de aviso, impõem-me gélido respeito, parecem lobos puros, guardas das SS para guardar os que vivem no receio constante de serem assaltados a qualquer momento pelos espoliados das casas-casebres. Parece que a pressão sanguínea do meu coração estabilizou quando me assegurei que os canídeos estavam atrelados, controlados por seguranças. Antes da porta de entrada, à esquerda, diviso uma enorme cruz decerto por chineses betonada, onde se lia com muita religiosidade: VOTEM SEMPRE NO NOSSO SENHOR ETERNO, NO PARTIDO DO VOSSO CORAÇÂO!
Entrei numa enorme sala e logo me informaram que o reverendíssimo não tardaria. Sentei-me a estudar o ambiente. Havia uma inundação, como que um cemitério de imagens de santos à mistura com cruzes que pareciam integrantes de uma colecção. Como mandam as boas regras da superstição, tudo na semi-escuridão para impregnar a sugestão do misticismo. O sacerdote vem vestido de máscara divinal, de aparência lustrosa como se acabasse de descer do céu, saúda-me:
– Ó Lwena! Bem-vinda à minha nova vida!
Levantei-me mentalmente abençoada, transparecida na minha pequenez, perante tanta grandeza evangélica. Cumprimentámo-nos e ele lança-me a sonda:
– Vens reviver as cruzadas?
– Por acaso até não. Ando à procura do paraíso perdido que me prometeram.
– É esse condimento que falta na cozinha da Igreja. Hum, hum, um paraíso perdido, que retorna às nossas contas bancárias, isso agrada-me muito. Óptimo… a Igreja Veni, Vidi, Vici, e o Bispo do Fogo de Deus abençoam-te.
A minha atenção prendeu-se numa vitrina com fragmentos de ossos, folhas de oliveira, restos da túnica de Jesus Cristo, azeite, água, terra, restos de madeira também da cruz de Jesus crucificado. Sem dúvida que mais parecia um museu da cristologia. Para pobre idiota como eu constituía um enredo que inspirava… desvendar, aclarar, entrar na invenção do culto religioso.
– São relíquias autênticas… achados arqueológicos?
– Santas relíquias, objectos dos nossos milagres. O Fundamento inventivo a descoberto.
– Bispo… e estão abençoadas?
– Abençoamos tudo. Esse relicário abençoei-o pessoalmente.
E logo pegou num frasco de azeite e explicou o seu mistério.
– Com o azeite azeitamos: foi ele que ungiu Jesus, veio da Terra Santa. Claro que poupamos despesas juntando-lhe óleo, senão a falência encontra-nos. A água procuramo-la por aí no rio mais próximo.
– Como conseguem atrair crentes que produzem musicada medonha, como se soprassem nas trombetas do Apocalipse?
– É pá, estrondamos a praça porque eles perderam os ouvidos. Surdaram devido às maratonas das noites perdidas. Os vizinhos, os poucos que ainda conseguem audição, têm razão que não os deixamos dormir.
– E quando eles protestam?
– Quando nos julgam, anunciamos-lhes a excomunhão, que o apocalipse já está aí. Não me digas que também não vês os sinais, isso é o que não nos falta. É muito importante manter a superstição nestes gentios. São mais idiotas que os carneiros, dominam-se facilmente… como a maria-vai-com-as-outras. E oro-lhes: alegrem-se, sejam barulhentos porque ganharão a liberdade de consciência.
– E quando no culto doentes com dores de cabeça, sistema nervoso arrasado, a rebentarem de estresse?
– Acreditam piamente nas nossas palavras. São altos cúmulos da crendice, parvoíce… idiotice.
– O negócio vai de vento em popa, Bispo.
– Prefiro não musicar esse salmo, como amizade segredo-lhe que facturamos só em dízimos, quatro mil vezes cem, fora as doações.
– Outra acumulação mundial, episcopal.
– Veni, Vidi, Vici.
– E o manancial voa para Olísipo.
– Para o meu Éden! Não confio nesses do Politburo. Há o perigo das eleições com muita fraudulência escondida. Receio que estejamos a voltar aos velhos tempos dos combates monótonos que os Gregos iniciaram na Baía de Aulis.
– E as curas milagrosas das dores de cabeça, da barriga, dos dentes, infertilidade, arranjar emprego, esposa, esposo…
– Fácil, é preciso ter fé, não há mal que sempre dure.
– A fé… curar dor de dentes é milagre?
– É sim senhor! Acabem com os doces. Passam o tempo a dentar chocolate, ordenamos que parem, a dor passa, e logo berram que foi um milagre.
– E os estouros da cabeça?
– Bendizemos para não ouvirem música muito alta, excepto na nossa igreja. A conspiração internacional barulhenta, aterradora da música, atrofia o cérebro, ele deixa de funcionar e surge a cura.
– E as dores de barriga?
– É tormentoso convencê-los que parem de comer o funji de bombo e as sandes motorola durante uns dias. Conseguido, cura garantida.
– E a badalada infertilidade?
– O machão afirma convicto que ela é culpada. A querida, atordoada com lamúrias acredita que Deus a abandonou. O macho relincha que a põe fora de casa se a barriga não inchar, que facilmente a troca por outra. Dialogamos, ela engravida aqui com outro crente ou enviamos o marido para o nosso posto médico… já está! As infertilizadas fanatizam-se, passam palavra que foi mais um milagre.
– E o emprego? Esse é que é um grande milagre!
– Aliciamos um crente empresário e o emprego está-lhe garantido.
– Caçar esposa, esposo…
– Enfiam-se, galam-se para aí, fintam-se, resolvem isso entre eles. Elas caçam marido e eles também as caçam.
– Igreja Veni, muito PIB nos milagres.
– Igreja sem milagres não sintoniza. Os crentes vivem, precisam disso. Andam sobre brasas porque desatinaram. Como comboios desgovernados, perdidos sem estações, apeadeiros, sem paradeiros. Como avalancha seca de pedras a rolarem por montanha, que acolhemos, o paraíso lhes prometemos. Entes em tais condições acreditam em qualquer coisa. É só ver como foram as últimas eleições legislativas.
– Operários contratados para a fábrica do Senhor, que na realidade são fabricantes de dízimos.
– Está a brincar ou quê?! Olhe que não se brinca com as Sagradas Escrituras, e muito menos com o santo nome de Jesus! Isto é-nos muito sagrado!
– Colonialismo, neocolonialismo, não há diferença. Difere nas mudas do capital volátil.
– O que é que disse?!
– Que os mitómanos se igualam.
– É isso! Não há crença sem melómanos. Um órgão soberbo bem afinado põe os crentes em êxtase. Não me pergunte que não sei porquê, ninguém sabe… como o amor.
– Ninguém sabe…
– Verdadeiramente ninguém o sabe explicar. Batemos na boa porta desse desconhecido com a religião, os crentes vão na conversa e facturamos em nome do amor.
– Tirando proveito do instinto de conservação das espécies sem identidade cultural
– Sim! Sim! O amor de fábrica com os crentes convencidos que são operários… que trabalham para o amor do Senhor. Não somos diferentes dos outros. Ganhar dinheiro com a crendice humana começou na Terra com os primeiros humanos. Somos apenas maiorais espertos. Despertámos para explorar o passado e os próximos futuros. A meu ver não há nenhuma revolução que acabe connosco. Quando revolucionam, no início expulsam-nos, deixam-nos espoliados, martirizados, empalados. Enfim, culpados de tudo. Depois a sanha esmorece. E reencarnamos mais vigorosos, mais poderosos. Sumamente a religião é o melhor negócio. Sem dúvida que é o negócio mais apetecível. Custos inexistentes porque os crentes suportam-nos. É o melhor negócio porque é patrocinado por Deus. Num piscar de olhos somos clientes VIP dum banco. É a nova vida.
– E o ausente Voltaire quando reencarna, os alicerces bíblicos desmoronam-se?
– Facílimo! Denunciamos aos crentes que os falsos profetas chegaram. Eles arrebatam-nos e queimam-nos na secular fogueira.
– E se não resulta… outra Contra-Reforma?

Upanixade – Gil Gonçalves

 

Eis o nevoeiro da Nova Vida. «O Presidente, José Eduardo dos Santos, convidou os habitantes a transformarem Luanda numa cidade bonita e num bom lugar para viver, onde cada um faça a sua parte, salientando que é possível situar Luanda ao nível de todas as cidades belas e modernas da África Austral e do mundo.» E via-se claramente um nevoeiro cerrado, também cenário ideal do filme, O Nevoeiro, de Stephen King. Eis a insustentável poluição da morte da matéria-prima da única actividade industrial: os geradores que no domingo, 06 de Junho, depois de mais um corte de energia eléctrica de doze horas para manutenção. Imaginemos um dia, dois, três dias sem energia eléctrica… a morte não é, será certa. Temos que fazer outra independência porque esta nunca o foi, jamais o será.

Depois esticou bem a cabeça e os braços, elevou-os e falou para as alturas.
– Ó vós que viveis nos vossos palácios, cercados pelos dias, noites e por seguranças esfomeados. Vigiados por milhares de guerreiros que efemeramente ainda vos protegem dos medos. Parto para Flégeton… lá nos reuniremos… e rolaremos nas suas ondas de fogo.
A quantia humana parecia um comício habituado, habitado pelo quase poderio meio centenário, abelhas numa colmeia. Os comentadores do quotidiano desfraldam notícias. Esta função é-lhes sumariamente atribuída. Têm o direito de não se calarem.
– Ih, ih, essa telenovela é vinculada demais, não vou deixar que arrefeça.
– Isso é propaganda Carnaval, eleitoral dos Politburo.
– O nosso eterno Politburo não precisa disso… já ganhou as eleições.
O jovem alterou a postura, silenciou para a multidão. Afagou com as mãos a dizer adeus. Depois colou-as no coração, e a pique foi pela aceleração da gravidade afundar-se no abismo eterno, a salvação dos suicidas. No solo um pequeno regato de sangue vermelhava a terra, que colidiu, juntou-se ao lixo, ao juramento dos libertadores imorais que prometeram que seríamos livres. Que jamais nos faltaria liberdade, que as terras seriam só nossas, que não existiriam mais musseques. A colecção humana desagregou-se. Alguns intrigados curiosos não arredaram teimosos. Ninguém atentava para actos suicidas. Andavam na moda.
– Que odisseia Mentor, que imagens espelhadas tão desiguais.
– Verás muito mais. Olha, a morgue principal está cheia de cadáveres desconhecidos. Já apregoam que Caronte, o barqueiro dos Infernos, está midas. Os falsos médicos que os Politburo contrataram, dão grande apoio a Caronte.

É notabilíssima a aptidão que os Jingola têm pela poesia, como uma desgraça colectiva. Na caminhada moldada, distanciada, ouço-os animados de bocejos alargados, pomposos.
– Já correm réditos no teu livro de poemas?!
– Ainda não abastaram angariadores.
– Torna-te fácil, elogia os feitos do Grande Mago do Politburo.
Ou ainda:
– Feitorei quatrocentos poemas, não consigo ludibriá-los, publicá-los.
– Também agonizei mais de mil, poesia dos combates… não sei se estás a ver!
– Hum, hum!
– Se publicar um livro de poesia, serei eleitor da Academia de Letras Politburo. A garinada fartará com lascívia, eu idem. Serei lisonjeado, admirado, invejado pelos meus amigos. Nas igrejas repicarão sinos, porque se pariu um grande escritor avatar. Farei um figurão heráldico. O meu nome literário será gravado na toponímia e a rua onde nasci chamar-se-á, Rua do Poeta.
– Ah! … Os poetas Jingola são tão diferentes, como punhais indiferentes.
– Discordo! A nossa poesia é celebrada nos punhais importados, espetados, frustrados de corrupção. Freados mas combativos demoramos convencimentos. Inda não zarpou para lá das Colunas de Hércules de Viana, porque nos falta tempo de limpar o sangue acumulado nas noites destes tempos do rei tão reais.
– Dos pés à cabeça, poesia vitoriosa e derrotas concordantes.
– Até ver!
– A pé firme!
– Sai uma glosa debatida, declamada, motejada do meu vanglorioso corcel bibliotecário.

A nossa negra Esperança desmonta
desponta primeiras pernas primaveris infindas, inusitadas
Iluminadas pelo branquear sotaque
do seu biquíni desalmado, armado e equipado
acalorado, transparente de suado
Olhe! Executa ela ansiosa ao redor
talvez que alguém pasmado à solapa
se deleite, a espreite
Nada acontece. Os bajuladores e os novos-ricos
cansaram-se, desregraram-se
na habitual amnésia lacunar, apunhalar
Fugitivos, proscritos desta negra sem Esperança.

O vento semeava a poeira dos condomínios que mais pareciam catedrais de construções flutuantes. Projecto nova vida, nova corrida ao homem dourado. Muito dinheiro, muita redundância bancária. Destruir, construir, destruir. Construir uma árvore é mais difícil, é mais fácil construir um prédio. Senti começo de inflamação das conjuntivas. Com apetite fármaco entrei numa farmácia. No fundo do balcão, o farmacêutico conversa molemente com uma cliente. São jovens, parecem disfarçar, namorar. Disfarço-me também e percorro o mostruário até conseguir ouvir a conversa. A jovem activa-se, sacode-se, sobe o tom da voz.
– Não tenho direito ao emprego porquê?!
– Sabe…
– Sei o quê!? Passei nos testes de admissão. Mandaram-me apresentar ao serviço hoje, e aqui estou.
– Você não entende as coisas.
– Repito! Não tenho direito ao emprego porquê?!!
– Sabes… se fosses mais clarinha… terias o emprego.
Ela levantou uma mão na intenção de lhe despedir uma chapada. Vacilou, arreou, ausentou-se espantada. A lacrimejar na porta de saída, esforçou as cordas vocais.
– Essa não! Essa não!
Aviei-me com o medicamento e reencontrei-me na rua. Soltei-me das ilicitudes dos ventos contrários.
– Que Deus nos acuda! Outra vez Nero incendiará Roma e culpará os Cristãos!

Entretanto, no cume de uma antena quatro aves de rapina aguardam maré de rosas. Alguns pombos distraídos voam perto. Então, duas rapinadoras alçam voo, preparam arraial alado. Pairam sorrateiras, os columbiformes detectam-nas e janelam.
As zungueiras em fila indiana espalham fervores nos seus andores. São jovens apetitosas que estudam nas ruas das universidades paralelas. Carregam livros de ouro, líquidos nas suas panelas. Imensas filas de viaturas esperam, desesperam. As estações de fornecimento de combustível são insuficientes. Aproximo-me do grande esgoto.
Nota-se que era uma rua extensa. Está um imenso estendal, lodaçal. Bem nutrido, alimentado sem encargos régios. Bóiam restos de lixo. Colónias de lagartas colonizam, fazem ambiente. A grata entomologia promove o desenvolvimento social das espécies. Um camião recém-chegado estacionou, estatelou com as rodas traseiras ao léu. Conseguiu engolir-se no espólio crateriforme. O seu condutor aprendeu com o rei David, que o abismo chama o abismo A engrenagem parecia um dos rios dos Infernos.
– Meu Mentor… é a versão do Apocalypse Now?
– Não… é o nosso mar sem existência.
– Sem ondas? Sem pescadores?
– A rua foi saneada quatro vezes. Instruíram como se deve morar num prédio. Os locatários fazem ouvidos de Jingola. Os saneadores cansaram-se, abandonaram-nos à sorte. Falta ignição para estas coisas e loisas. São vernáculos, venatórios primevos. Utilizam-se disso como estratagema de vingança. Fruem o prazer mórbido da destruição.

É indubitável que há mais seitas religiosas que campos em Jingola semeados. Infindáveis sementeiras do nosso chefe semeador, sem lavrador. Muita semente, poucos lavradores, muitos importadores. As seitas religiosas não nos ensinam a cultivar campos, promovem, vivem da fome dos crentes. Seitas, igrejas improvisadas mas mais tarde bem abastadas. As vozes, fiéis berradas fazem com que as cabeças e os corações se rompam como porões. Sempre pregadas no Mens divinior, o influxo divino! Lembrei-me disto, porque aproximo-me da casa do meu amigo, Bispo do Fogo de Deus, um especulador imobiliário que habilmente se serve do nome de Deus. Neste mundo tudo é negócio, e sem dúvida alguma que a religião é o meio mais indicado para o enriquecimento fácil. É um soberano novo-rico, sócio dos especuladores imobiliários locais e internacionais. Costuma ditar-me a ponte do postulado da sua confraria social. Que as igrejas crescem proporcionalmente à quantidade de analfabetos que fabricamos. Há malas endinheiradas dos e das fiéis dizimadas, aviadas. Muito maná dos obcecados que bem utilizado na agro-pecuária extirparia a fome material do êxodo Jingola. De certeza que chegou, já aqui está. Vou escutá-lo, reverenciá-lo.
O Bispo do Fogo de Deus orava numa mansão que lhe era extensivamente reservada. Ostensivamente muralhada e reforçada com seguranças das empresas privadas da nomenclatura. Sempre a obrar, alargar espaços. Derrubar muros, casas-casebres e construir outros porque as fronteiras se expandiam. Aproximação da mansão ou intromissão desconhecida era aventura fatal. Algumas almas-danadas tentavam profanar o santuário, mas ocultas câmaras de vídeo sempre vigilantes filmavam-lhes os momentos inglórios do fim num buraco de terra desconhecida, que fortalece os vivos e apodrece os mortos.

gil gonçalves foto 1Upanixade – Gil Gonçalves

 

A ideia com que se fica da actual hereditária governação é a de um treinador, e a população os jogadores. Quer dizer, Angola ainda não é uma nação, é um estádio de futebol. Só que a população continua muito mal treinada. É por isso que Angola acumula um infindável rosário de derrotas a todos os níveis. A derrota da miséria é o exemplo mais ultrajante, apesar das receitas do estádio petrolífero.
Sim, claro que para qualquer país não é muito difícil organizar o campeonato mundial de futebol. Dinheiro não falta, até abunda em demasia. Os milhões gastos nos estádios de futebol recuperam-se rápido. Porque os crentes gastam até ao último centavo, penhoram ou contraem empréstimos para assistirem aos pontapés nas bolas. Agora, organizar o campeonato mundial das universidades, ou o campeonato mundial da luta contra a corrupção e a miséria, isto sim é imensamente complicado de realizar.

Destaca-se uma grandota que milagrosamente acessou jurisdição universitária. E advoga o Direito Natural:
– Estás feito com os Ufolos, né!? Já vais ver!
E celebrou voz de comando latinizado.
– Argumentum baculinum. Quero dizer: chega de conversa, cacete neles. Vai ser pior que as Termópilas. Minhas queridas… A ELES!!!
E caiu uma chuvada que alagou as caras policiais com chapada. O oficial, o inimigo principal, foi o eleito da discórdia. Desabaram-lhe trovoadas de cacetada e socada. A policiada desprotegida manobrava as mãos, defendia-se por instinto. Apelar às armas virou impossibilidade porque o esquadrão feminino mantinha-se em guarda. Atentamente desarmados pelas corajosas, derreados e aterrados solicitaram forças aos membros inferiores. Ao levantarem para debandarem, a jurisdicional invocou a voz do mulherio da Revolução Francesa:
– Só mais um! Só mais um!
Acobertadas de glória pelo término favorável da batalha no gueto, olhavam sem horizontes para os destroços vendíveis. Escapulidas no recomeço da luta sem alternância, sugeriu-se o inventário dos acontecimentos:
– Não dá para conferir. Num bairro onde ninguém gosta de confusão, repentinamente vem à tona mais um episódio da Guerra de Tróia.
– Nunca se investiu, instituiu tanta fome como nestes tempos badalados, baldados. Muitos guetos sem futuro, como este, serão os formigueiros que alimentarão o reencontro inexorável da Guerra de Tróia. Os esfomeados não temem a morte, ela abastece-os regularmente com cestas básicas aeriformes, de fomes. Está sempre latente nos corações a revolta candente. Será uma grande revolta mundial, juridicamente universal. Quem a impossibilitará de terminar? Não haverá muralhas, fossos, mares que lhe resistam. Multitudinários esfomeados mutados em baratas, moscas, ratos. Afasta-se um, vem dois, três. Assim falará o próximo salmo da nova Guerra de Tróia.
– Deve ser por isso que os romanos não gostavam de Cartago.

O barqueiro Caronte reservava uma barca, sempre preparada para singrar no rio Idas. Levava nas ondas os restos das almas dos ousados sábios ou opositores. Erradicara-se definitivamente qualquer manifestação de sabedoria ou oposição. Os Politburo nasciam sábios, congeniais autorais. Dominavam, fustigavam as epístolas da oposição. Mas os trovadores, exilados internos sem mácula pedravam letras. De chofre aparecia-lhes o barqueiro Caronte, esfregava as mãos de avarento, e inquiria se havia almas para as Idas. Se respondiam, por enquanto ainda não, Caronte impacientava-se.
– Não brinquem com a ludologia. A política não é arte de cartomantes. Daí não advém futuro. Da outra Revolução Francesa que há-de vir, enviam-me muitas almas. Sempre foi assim, sempre assim será.
Os Politburo subiam os degraus do poder sem esforço. No altar cultuavam as vastas sobremesas das multidões sem história. Que de mãos estendidas, flácidas, migalhavam o culto da fome. Tudo é composto de convicção.
– Não há nenhuma revolução que nos vença, que nos convença, ou que nos tire do lugar. Governamos demasiado, porque o tempo só conta enquanto estamos vivos. Governamos mal? Os acólitos aplaudem-nos pela boa governança. Outros povos, especialmente este que dirigimos, os Jingola, envolvem-se, deixam-se levar na felicidade que lhes prometemos nos discursos de fim de ano. Antes viviam na extrema escravidão, hoje estão libertos. É verdade que existem alguns constrangimentos, mas o sorvedouro dos milhares de leis decretadas solucionarão a emancipação dos povos. Finalmente a miséria acabará, atingiremos, bateremos as metas dos recordes do desenvolvimento.
– É?! Acontece que fiz um grande investimento na compra de duas mil barcas e muitos barqueiros para as conduzirem, que correm o risco de perderem os empregos. Não estão a cumprir o contrato, exijo indemnização. Arranjem aí umas epidemias, esquadrões da morte, matanças de criminosos, qualquer coisa… não se sobrevive sem cadáveres.
– Velho Caronte, não escorregue, cadáveres não faltarão. Fique calmo que brevemente tombarão outra vez mil por dia.
– Não acredito em tal maldição! Vão fazer outra revolução?
– Nem tanto a Norte… vamos fazer outra guerra mais devastadora.
– Pendo dessa garantia. Importa-me que cumpram as normas contratuais.
– É verdade que demasiamos a honrar os nossos compromissos, mas quando os lesados nos pressionam, vasculhamos a papelada e accionamos o pagamento. Só trabalhamos debaixo de pressão. Somos como uma locomotiva a vapor.
– É!.. São bons crentes, confiam na divindade que rege o Universo. Naquele que é a origem do cadinho, que nos criou, nos originou. Sois os Politburo que aceitam um só deus mas que seguis as doutrinas do feitiço. Tudo é decidido e explicado pelo feitiço. Concedo-vos prazo de mais de trinta anos para acabarem a contenda. Depois exijo que façais eleições senão…
– Senão o quê?!
– Altercarei a dívida com juros muito pesados. O vosso corpo será mais pesado que o chumbo e não o podereis suportar.
– E perdidos nos encontraremos desarrumados. Malditos gregos que inventaram a democracia e mais as eleições.

Os Jingola acessavam uma emissão de rádio, onde amiúde proclamavam, desabafavam vicissitudes incomensuráveis. Apesar dos esforçados Politburo para a silenciar, ela resistia bravamente. Era o rumo dos sem rumo, assim divinizavam a Rádio Oráculo. Alguns casuístas comparavam-na a Asterix o Minigaulês, que resistia arrumado, aprumado num cantinho sombreado da mafumeira. Os Politburo rabulavam que a Rádio Oráculo era o seu calcanhar de Asterix. Os circuitos dos telemóveis mais íntimos da governação paladinavam que era o calcanhar da função do rei do mal.
Jingola propagandeava a epidemia de cólera que militava com muitos aderentes para o interior do reino. Como praga ratada sem navios mercantes. Frechei-me com grande constrangimento: ninguém ousa explicar que a principal causa da cólera… é a fome. A epidemia cadastrou até ao infinito KK de Jingola. A Rádio Oráculo solicitou anuência para implementar o seu feixe hertziano a todos os ouvidos Jingola, para que as populações se informassem, acautelassem, sanassem a epidemia. Os Politburo liminarmente recusaram. Cartaram, selaram, pergaminharam para a Rádio Oráculo.

Reverendíssimas Excelências da Rádio Oráculo:
Havemos um contrato com o barqueiro Caronte. A epidemia da cólera faz as vítimas suficientes, as almas que o barqueiro necessita a contento. Sentimo-nos felizardos. Se o sinal da vossa fé se digladiasse pela rádio e por toda a Jingola se espalhasse, não cairiam vítimas da cólera. Contamo-nos peremptórios firmados, e esse vosso pretenso vento é… não aceite. Alvejamos a certa teologia do querem ir mais longe, para além das redondezas, dos limites de Delfos. As distâncias curtas por vezes tornam-se longas. Permitimos que funcionem devido à frequência democrática que nos foi imposta. Encetámo-la no compêndio das contrariedades.
Estendemos-lhes um dedo, agora querem a mão, depois o corpo. Para convencer que somos democratas anunciámos que se realizariam eleições. Notem bem: que se realizariam… em qualquer momento, em qualquer época. Tudo depende da nossa íntima vontade. Não é a claridade de qualquer oráculo que nos leva ao cume solar e eleições datar. Uma coisa é incerta: o princípio da incerteza eleitoral. Os nossos insignes patrulheiros e marinheiros vigiam atentamente as proas do vosso ecletismo. Pretendem entreabrir a janela da noite escura para a missa de manhã. Fazer muita luz para jorrar nos espíritos, com tanta vela por aí à disposição. Estamos à vela.
Abundantes Saudações Revolucionárias. Jingola, Frimário, Ano II. Ano da Vida Incerta.

Resposta da Rádio Oráculo:
Depois de consultado, o Oráculo revelou-nos:
Parafraseando o ainda perfume opiado, marxista de Bertolt Brecht, acertemos: temos governantes que são corruptos num dia, e são bons. Temos outros governantes que são corruptos durante um ano, e são melhores. Temos outros governantes que são corruptos durante muitos anos, e são muito bons. Mas, há outros governantes que são corruptos toda a vida… esses são os imprescindíveis. Assim como se mutam os climas, também se mudam as tempestades. Tudo é composto de ciclones.
Injectadas saudações. O Directório. Jingola, 9 Termidor. Ano da emissão da nossa Rádio a todo o Reino.

A ponte projectava magnitude louvável. Debaixo, uma multidão de pilares humanos olhava com altitude. No tabuleiro em cima, um jovem mimicava, distendia continuamente as mãos. Chegavam, juntavam-se mais olhares. Davam-se alvitres e palpites. Explicar porquê, ninguém conseguia, sabia. Alguém mais palpiteiro azedava que ele era maluco, drogado. Um alvitreiro tinha a certeza que era um actor que filmava uma cena para a telenovela da TV TPA nacional, de Jingola habitual. Ele desacelerou os acenos, elevou as mãos ao céu e num sacerdócio pregou a vaidade da verdade:
– Fui um grande lutador… sempre até ao último momento. Não engulo esta vida de miséria, de fome, porque vejo os Politburo a comerem tudo. Até uma ilha pequenina, aquela lá no Futungo, a filha da FAMÍLIA vai comprar (?). Verdadeiramente é agora… isto é que é o verdadeiro colonialismo, o outro era de brincar. Pois… não consigo estudar, não há emprego, fui corrido pelos chineses que acabaram agora de sair das cavernas. Os Politburo desvivem-nos, cortam-nos os anseios, as asas… ó singular desesperança! O barqueiro Caronte espera-me. Não terei ninguém para me colocar as moedas nos olhos.

gil gonçalves foto 1Upanixade – Gil Gonçalves

 

– Hum! Esses gajos estão a petrolear de mais.
– É mesmo, vamos pois então chamar os Greguejados para lhes queimarem com o Fogo deles.
– Os Greguejados sem aquele parecido com o Aquiles não furam nada.
– Esse é um grande sacana.
– Porquê mano?!
– Caçou a virgem Briseida, está com ela há mais de mil noites. Dizem que está indeciso, deseja que ela permaneça virgem.
– Ah, afinal ele é desses?!
– Mas que herói, que guerreiro é esse, que não consegue tirar a virgindade a uma mulher?
– Os nossos penetram, arrebentam bem, são muito vaginais. Muito soldados de rebentos.
As fardas da lei arruaram, impuseram vários balázios para o ar. O ajuntamento quitou, relaxou, debandou.

Era um bairro que vivia na calmaria nostálgica da nova vida. De manhãzinha, as mamãs armavam-se com vassouras e cuspiam o lixo anterior. O ramerrame zodiacal marchava matinal. Já havia montes de lixo despertados, que desterravam nos descampados. Não havia recolha, pariu montanha. Com ingénua sacanice as crianças perseveravam, logravam as saias das mães. Elas rebaixavam-se até aos chinelos, lembravam-se da facilidade vassoural e bruxuleavam vassouradas nos infantis costados. A criançada resfolegava.
– Mamã, porra, tenho fome!
– Deixa-me acabar o lixo. Vou encestar rebuçados, vender alguns, depois compro-te pão.
– Mamã, se não me deres comida, espojo-me na lixeira!
– Tenta só, vá, vais ver a surra. Vou-te amassar os ossos!
Alheio às diatribes o sol admoestava o solo, crestava os rostos. Uma esquadrilha OVI – Objecto Voador Identificado – de moscas-varejeiras verdejantes fazem reconhecimento, defendem os seus interesses. Objectivos abundam, tantos que voam indecisas, não sabendo onde pastar. Em exposição nos pousos fervilhavam rebuçados, bolachas, cigarros, pastilhas elásticas, refrigerantes, cerveja fumegante, a estalar. Enfim, um rosário mercantil. As mamãs requeriam ao direito divino uma bonança na borrasca para facilitar as vendas. Senão, ocorreria tempestade em casa. O basto infantário caseiro, a desoras desentende porque não lhe dão comida.
Algumas mamãs macilentas do espólio gerado ancoravam silenciosamente os tenros corpos em qualquer instituição de caridade. O dinheiro tão parco não alcançava as despesas escolares. Os livros careiros boicotavam o olhar das letras. Os reinóis poliram insustentável acordo literário com os neo-alfandegários. O tributo advindo, primaz, alvissarava cofres ocultos, incultos. Com preços desvelados, desnivelados, poucos se arriscavam na aventura da leitura. Alegando que os exportadores do piorio fenício eram grandes sacanas. Que viajavam de muito longe, sujeitos a constantes ataques de piratas somalis e de outras turbas cansadas das promessas de liberdade das ditaduras do Golfo da Guiné. E que as suas mercadorias leitorais não tinham garantias dos seguradores, de leitores. E mais: que não tinham culpa nos derrogatórios notariais que o reino Jingola se situasse nos confins roteirais. Os preços subiam num escarpar precipício. Galavam com náutica:
– É borda-falsa, barlavento, sempre ao lado da brisa acolhedora.
Os Jingola pegavam, aceitavam piramidais comissões. Associavam-se em parceria às empresas fenícias.
As crianças enganavam a escola. Alistavam-se nos exércitos Órfãos. Não faltava mão-de-obra para a soldadesca dos espoliados das terras e das casas-casebres que aumentavam os exércitos dos antes lutadores, defensores do reino da FAMÍLIA e agora abandonados, degredados, expatriados.
O bairro continuava ocasional, mecânico como uma fábrica de produção em série. As mocinhas caprichavam, criavam Novo-olhar. De beleza invulgar enfrentavam a algazarra musical. Dançavam, remexiam-se, oscilavam muito elásticas. Muito distraídas, era assim que ludibriavam o tempo, porque não se lembravam da sua existência. Não se danavam com isso. As telenovelas diluviavam, e sempre luziam parvos que lhes abonavam.
O pacifismo bairrista pactuava. Clientes abasteciam a sede com sacos plásticos de água de frescura duvidosa. As sanduíches evoluíam, movimentavam a clientela. O corre-corre transeunte avolumava a facturação nas bolsinhas. As moscas esquadrilhavam reforçadas. Tudo estava composto de indícios regulares. Uma repentina pequenina chega. Lembra Fidípedes a anunciar que a batalha de Maratona foi ganha. Arfa desmedida, perdeu o jeito do caminhar. Opressiva esforça-se, respira muito fundo, a voz não sai. A mãe vê que ela está muito assustada, embargada.
– É o quê porra! Viste algum feiticeiro?
A menina assusta-se, a respiração incha, desincha.
– Estiveste outra vez a ver aquele filme de terror na merda desse vizinho?
O querubim move a cabecinha negativamente. Infelizmente a mãe não tem tempo para a aturar, pois tem cliente a piscar. Decide acabar com o mutismo da filhinha com a arma secreta das mamãs.
– Ah, sua aprendiza de feiticeira! Vou-te desinchar com tanta chinelada que te arrependerás de ter nascido!
Antes da mamã iniciar as suas artes marciais a menina consegue soluçar:
– Os … os… os…
– Os quê filha de um bêbado!?
– Mamã… mamã… mamãzinha… os galos… estão ali.
– O quê!? O quê!? Ai meu Deus!
A mais velha pressiona as mãos na cabeça. Revoluteia duas circunferências, batuca os pés na terra amolecida, de barro avermelhado. Isto ajuda-a a pensar, a decidir o que fará a seguir. Parou, baixou as mãos, inchou o peito, alertou geralmente:
– Gauleses à vista!!!
A criançada maravilhou os olhos, que brilhavam intensos como holofotes.
– O Asterix vem com eles?
A menina reclama, tenta finalmente elucidar a mãe:
– Vocês trocam tudo! SÃO OS UFOLOS… OS UFOLOS, PORRA DE MÃE!!!
– Está bem minha filha. Fujam! Avista-se Fogo Grego ufólogo!
A calmaria tresandou, parecia mar agitado quando atira os barcos uns contra os outros. Confusa maré humana, de corpos contra corpos, de filhos enlaçados, que na atrapalhação custava pegar no sustento da insustentável fome. Rebuçados, cigarros, bolachas, pastilhas elásticas etc., sofreram a condenação do chão. Patinharam para as cubatas. Às crianças foi silenciado que se escondessem debaixo das camas, onde as havia, porque era normal dormir no chão. Eram seis Ufolos. Um, sem dúvida o chefe, mascarado de Zorro. Cópia refeita, possante, trajado de negro. A máscara negra entreabria-lhe os olhos, impunha calor vampiresco. As pistolas pendiam cinturadas, imponentes. Alaram pombos e pardais, alocaram tranquilos pombais. Montado num pau de vassoura, um varão que iludiu a mamã exclama com convicção:
– Aió… Silver!
O Zorro amuou. Apetecia-lhe rir da ousada criança, mas tinha, sentia-se obrigado a manter distância, meter medo, senão perderia o respeito, o comando do bando. Ordenou à criança que freasse a montada. Do seu hábito seleccionou voz autoritária.
– Vai para casa, dita às safadas que ponham tudo cá fora.
– Ok! Zorro mascarado!
As mães olharam longe a conversa, aprochegaram-se, lagrimaram, lastimaram.
– Não nos roubem por favor! O pouquinho que temos foi ganho, crucificado! Somos escravas dos descolonizadores, geradas para os distrair.
Os Ufolos marimbaram-se das prédicas, dos desejos sublimados das pobretanas sofredoras. Num ápice foram trambolhadas televisões, ventoinhas, aparelhagens de som, dinheiro. Uma mamã enfrentou-se e levou monte de chapada. Furiosa emparedou:
– Sacanas de merda, vão roubar os governantes do Politburo, eles têm tudo!
– Lá chegaremos.
– Aquando?!
– Uma noção de tempo.
Esgueirando-se, uma belezinha furtou o cerco dos Ufolos. Parecia uma fada que pairava suavemente na corrida até à esquadra da polícia. Chegou levemente. Depois partiu num carro patrulha com seis polícias de olhar pesado, e sirene carregada. Estacionaram, arruaram-se, descende um oficial com óculos de breu. O Zorro e afiliados escapuliram-se próximos, disfarçados de vendedores de rua. Os produtos da contribuição fiscal foram desalfandegados numa viatura de vendas de móveis ao domicílio. O oficial calendarizou, sublinhou:
– Tempo para desordem, tempo para ordem! Minhas queridas… para casa!
– Mais pra casa?! Não temos nada para pentearem!
– CUMPRAM AS ORDENS!!!
O metal tiniu nos gatilhos leais das armas do dever. Cães, gataria, rataria, serpentes… e borboletas, acoitaram-se nas redondezas como testemunhas do oculto. A infeliz que a História atraiu destapa a alma soturna.
– Ufolos e Politburros … são todos zebras, cepos, troncos dos mesmos ramos. Perderam as almas sombrias, nada mais lhes resta.
– Redobra a falaz, a perspicaz postura. A minha glacial farda oficia o juízo dentro e fora dele.
– Hum! Reles Politburo, soviete.
Os Ufolos calculavam que os Politburo brindavam vivaz temor deles. Creditaram a confusão na sua conta, escalaram as paredes dos barracos, desvendaram os soalheiros telhados zincados, verrumaram, espernearam as julietas. Sabichões na selecção natural das espécies, emplumaram as fêmeas aves-do-paraíso, aquelas que os queimavam, teimavam no prazer da negação do namoro. Fugaram com elas, e pelas andanças dos descaminhos repartiram estragos a mais de seis carros. Garantiram a tranquilidade final com muitos disparos para o ar, de meter medo. O oficial da polícia Politburo melindrou grande desrazão aos seus conceitos, preceitos da desordeira manutenção sem bandeira. Deixaram-no fraco, sem frasco. Motivou para o lado da fraqueza:
– Prendam-nas… chamem camião para o Zango que as carregue!

blog_Gil_Goncalves_UpanixadeUpanixade – Gil Gonçalves

 

– Instalam aparelhos de ar condicionado potentes, os cabos queimam, incendeiam, ficam sem luz. Insistem, os cabos eléctricos da rua, os fusíveis, as casas ardem e ainda insistem- Dizem que a culpa é do governo.

Moradores em pânico ganham asas, voam, aterram na segurança da rua. Exclamam-se em lamentações:
– A minha ventoinha está a arder!
– A minha aparelhagem foi-se!
– A minha geleira ardeu!
– O meu DVD, acabado de comprar…
– Mentira, você roubou-o!
– E você faz o quê?!
– Ó raça, é fugir, o prédio parece que vai explodir!
Esperam que os bombeiros cheguem, que consigam desengarrafarem-se do trânsito e pouco ou nada restará. Quando chegarem, e a água que trazem acabar, não poderão fazer mais nada porque não há bocas-de-incêndio. Se existissem, delas não sairia água. Apesar de duas bocas-de-incêndio institucionalizadas: Dum lado o inferno do governo, do outro o inferno da oposição. Há muitos incêndios devido a curto-circuitos. Os Jingola pós-parto são excelentes engenheiros electricistas.

O meu avanço encortina-se por remoinhos de fumo. Alguém pegou fogo a um monte de lixo na tentativa de o eliminar. Dentro de pouco tempo as redondezas serão engolidas pelo nevoeiro lixento semelhante a uma nuvem. A zungueira solitária orienta a carne na banheira solidária. Enxota as moscas que não se cansam de fazerem ziguezagues. Alguém não está satisfeito com isso e com ela.
– Essa carne está podre, estragada. Vocês compram-na nos armazéns dos sênê (senegaleses) por preço baixo, lavam-na com muito detergente, põem-lhe muito sal e vendem-na como se fosse chispe.
– Ah!.. Você quer-se complicar comigo, estragar o meu negócio?!
O rádio acompanha-os, zune propaganda plurianual. Cozido principesco, habitual.
– Vamos criar colonatos e compramos o excedente da produção, depois armazenamos em silos para as épocas de crise.
Com certeira, matreira convicção, como anjo da anunciação que parangonava.
– Os preços do petróleo sobem muito. Isso é bom para nós.
E muito mau para nós. – Repicaram os sinos dos celeiros vazios.
A chuvada teimosa aligeirou várias famílias. Expurgadas dos bens, imploravam ao Altíssimo que reparasse as fugas das águas dos canos onde Deus habita. Clamavam por ajuda terrena, do governo da terra. A expectativa atenuava-se com a recomendação, que por agora não era possível fazer nada, porque existiam situações gravosas.
O dirigente terreal solenemente desvenda aos rostos desabrigados a recordação da inundação.
– Antanho aqui florescia magnificente eucaliptal. Um dique providencial que segurava, desviava, acorrentava a correnteza das águas. Sem apelo arrancaram-nos, das suas carnes postaram negócio. Acenderam carvão para cozinharem e para venderem.
A rabugice da idade anciã sem cidadania também se desabriga.
– A luz da terra prometida tarda. Não podemos conservar comida. Arrancámos só alguns eucaliptozinhos para apoiar a nossa deglutição.
– Os nossos venerandos amigos chineses instalaram os cabos eléctricos. Acabaram o trabalho, os Órfãos roubaram tudo. Acabou-se a celestial iluminação.
– Ser independente é o quê?! Escravos independentes é o quê?! Somos escravos, donos do nosso destino… como os cães.
A informação disseminava a antologia da cólera. Os Jingola sem luz, sem dinheiro para pilhas, não tinham acesso às ondas de Hertz. O tempo colava-se, escoava-se na atenção constante do vender subserviente. A cólera impava pela atenção emprestada. Os direitos de superfície catapultavam longânimes. A principesca informação minoritária aplaudia o defeso contra os desterrados. No fim do dia a fome em sociedade com a morte cobra a dívida, faz o balanço da mortandade. Os números mortais das epidemias, das fomes, deixaram de impressionar. Deixam motivos para a soberba se alegrar. Muitos rios a reinar, muita água, muita gente a morrer de cólera, porque não tem água. Aprofundam-se as caves do poder mas, temos fórmulas para o deter.
Junto do banco de urgência do hospital, as pessoas abandonadas pela independência aguardam pelos seus familiares doentes. Dormem dementes, dependentes do chão, em papelões. Produzem aparas, restos de comida, fezes, urina. É que reconstruíram o hospital, esqueceram-se dos sanitários externos. O administrador desata-se:
– Já lhes disse para saírem daqui. Parece-me que são surdos, ou simulam. Todos os dias nisto… já estou cansado. Não sei que gente é esta, quanto mais lhes falamos, fazem pior. A nossa população não está preparada para viver em sociedade. Nem com um exército de seguranças consigo impor-me.
Ruas com condutas de água rebentadas fazem concorrência desleal aos reservatórios de água instalados no céu. Se acabassem os charcos, lagos imundos, ruas lamacentas, purulentas, as crianças ficariam infelizes sem estes jardins infantis. Ilhadas, neste campo bem concentradas.

Chove, as pontes paliativas desabam e reinauguram-se. A travessia do negócio é ágil. Quando passar pelo grande esgoto, estarei mais ou menos a meio do caminho até Tule, ali para os lados de Viana.
Algumas zungueiras desesperadas movem a leveza das bacias vazias.
– Ai minha irmã!.. que será de nós. Os lagos onde sai o cacusso… o peixe, estão contaminados com a cólera. Vamos passar fome!
– É mentira deles, querem roubar-nos o negócio!
Disfarçam a tristeza com caudais de risos naturais, sem beneplácito. De repente desencaixam-se, piram-se, entrecruzam-se. A fuga de novos rumos desperta. A tenaz da conspícua lei do Politburo acerca-se. As sobras dos seus panos arrastam-se pelo chão. Na atrapalhação as crianças são atiradas de qualquer maneira para as costas. As bacias e as chinelas parecem fugir-lhes das mãos e dos pés. Uma nuvem de poeira misturada com lixo levanta-se. Parece um ciclone ou um tremor de terra. Fiscais e polícias trazem a aparição da grei triunfal… a perseguição.
Elas usaram um estratagema surpreendente. Discorreram, correram para um lago da chuva. Pararam quando a água lhes subiu por cima dos joelhos. Estavam… como se aguardassem o baptismo no rio Jordão. Os filhos às costas, as bacias nas cabeças, olhavam sorridentes, desafiadoras. Estavam num excelente refúgio. A fiscalidade e os polícias desistiram, sem coragem para a aventura. Receavam baptismo de água impura.
O assédio terminou, elas fizeram algazarra por mais uma vitória conseguida. A guerra da fome é injusta, desigual. Elas voltariam a lutar contra o atrevimento da fome da comida e da ditadura.
A nossa luta continua, com os olhos quase sempre no chão. O que resta das ruas e das armadilhas dos buracos que parecem ter nascido de uma imensa chuva de meteoritos. Os pés têm que ser muito cuidadosos. Alguns afogaram-se, apareceram cadavéricos nas covas aterradoras.

Uma grande agitação surgiu. Para aí uma dezena de cavalos de Tróia metálicos, cavalgados por guerreiros fortemente armados. Desmontam, assediam as desmuradas casas. Os Jingola imploram o nome do rei… em vão! Fogem das tocas, do desmoronamento marcial. A conspurcada demolição teve efeito, o pretexto de que são necessários hotéis para alojamento de turistas. Habituados ao pavor libertador, há quem escarneça.
– É para alojar os ratos de hotel deles. Caminhamos, outra coisa não se vê.
– Com tanta espécie de ratazanas mundiais aqui apontadas, dá para construir um museu de mastozoologia.
A derrota da democracia segue frígida, sem eleições. Como o cavalo, trota, salta. O cavaleiro medieval instituído catapulta.
Os reinantes emanciparam-se com a produção petrolífera. Para sobreviverem, os Jingola emanciparam as suas esposas. Elas assumiram, dosearam com estoicismo a hercúlea irresponsabilidade do deus protector das lareiras. Heroicamente inventaram qualquer coisa para venderem. Tresmalhadas, conseguem comer algo durante o dia, à noite não. Sacrificadas, obedientes à fome, superaram casebres, compraram geleiras a prestamistas, ventoinhas para silenciar, afastar a mosquitada. Ganharam grande amizade com a fome, para adquirirem o martírio de assistirem à programação da TV Jingola, e à ilusão da paixão sentida das telenovelas. Aparelhagem para dançar, batucar. Dependiam da má vontade, da arrogância, da ganância dos reinantes, do gosto de ver tudo às escuras. Perdiam episódios novelísticos, devido às intermitências voltaicas, e desgarravam-se.
Os Órfãos das guerras do regime apertavam vigilância. Movidos pelo apetite voraz dos pertences de outrem, esgueiravam o ónus das pias Jingola. Eram vãos os protestos. As almas-danadas pedravam.
– Tudo confiscado. Vocês compram, nós roubamos. Não se incomodem com os prantos.
Uma jovem desbloqueia-se.
– Tudo surripiado. Nós compramos, vocês levantam. Calceteiros na terra de ninguém.
Os Órfãos habituados, nascidos, crescidos, desenvolvidos nas guerras da negritude estalinista não debandaram sub-repticiamente. Foram-se como se saíssem dos seus pardieiros. A multidão desacoita-se, amontoa-se às dezenas, centenas. Duas moçoilas desalinhadas requebram-se.
– Foi a polícia do Fouché, do Estaline?
– Sua parva, pensas que estás aonde? Foi a política dos Politburo.
– E há alguma diferença?
Um embriagado e recém-chegado pelos dotes da rapina neocolonialista saúda:
– Não queremos casebres! Não queremos casas de chapas! Não queremos palhotas! Vivam as casernas dos Lares Patriotas! Vivam os da Nova Vida! Vivam os Zangados!
Protestos impopulares são enviados. Uma onda vozeira ecoa pelos retintos labirínticos. As tolas entontecem.
– Não queremos casernas? Não queremos cavernas? Viva o ar milionário da Ilha do Cabo? Viva a má vida? Então querem o quê!?

gil gonçalves foto 1Upanixade – Gil Gonçalves

 

Acreditar nestes políticos é como viver num prédio prestes a desabar. E são tantos, os prédios. Como generais no poder, democracia generalizada, militarizada. Com dois desejos, duas faces. Qual deles, qual delas?! E assim constituíram-se populações mal-educadas intencionadas, óptimas irresponsáveis, moldadas e acondicionadas. Como monges em falanstérios e magias que insistem em moldar-nos, dominar as nossas mentes. Não há bons governantes, apenas homens que executam o desejo, a vontade do povo.

Um cientista Jingola dissertou que a população é famosa pelo seu analfabetismo. Que não tinha direito a instrução. Isso, e por causa da fome, descobriu que só usavam dez por cento do cérebro.
Não sei distinguir se é a água que arrasta o lixo, ou é o contrário?! Lixo, água e comida. Na transfusão diária à Nação, a cólera expandiu trinta mil infectados e morticínio de quase mil. A acção planejada das chuvas divulgará subitamente a epidemia. Na terra ávida por cadáveres, a cólera diminuirá quando a população escassear, ou quando os políticos se extinguirem.

Abriguei-me num contentor na desespera que a chuva desalentasse. Para obter tal permissão comprei uma cerveja. Senti que a minha respiração se dificultava devido ao fumo que vulcanizava no interior. Apenas duas pequenas janelas nos extremos velavam o arejamento. Desloquei-me para a mais próxima, era, parecia o fumo do Vesúvio. Olhei para a jovem que fingia ser empregada. Tentei defender-me.
– Donde vêm tanto fumo?
– Dos geradores!
– Vamos morrer intoxicados. Presumo que há deleite nisto.
– É isso! Um é do general, o outro é dum novo-rico da padaria. Já refilei, deram-me a importância do desprezo. Reino governado por generais e novos-ricos é assim. Subi ao castelo dos deuses sanitários, ameaçaram-me com a morte. As ameaças tornaram-se tão vulgares. Creio que devíamos mudar o nome para reino das ameaças. Esta gente é como Napoleão, é tudo deles, pensam que são invencíveis.
– Descolonizadores, novos mentores. – Apoiei.
– Mais um campo africano da morte, mais um quilombo de caveiras.
Os olhos começaram-me a arder, a garganta a condescender. Fugi para debaixo de um toldo que servia de habitação a duas famílias que ficaram sem casa-casebre. Foi destruída por um príncipe para construir uma mansão. Podia abrigar-me da chuva se fizesse despesa. Só havia cerveja. A chuva amainou. Daqui até Tule, mais ou menos em Viana, terei que desandar cerca de vinte quilómetros.

Luanda, o condomínio Jinga Isabel está fissurado, ainda há pouco tempo inaugurado. Foi construído (?) por uma empresa brasileira. Resta saber o nome da empresa. In Tv Zimbo.
E quando os prédios e torres começarem também a racharem? É que quando chega a época das chuvas, e a tendência é chover mais, cada vez mais, muitos lençóis freáticos ganham corrente, revivem. Literalmente, Luanda assenta-se sobre um rio subterrâneo.
Comprar carro é acrescentar mais um buraco à tormenta do nosso desviver… como navegar sem mar. As estradas não são necessárias mas, pode-se confessar que tudo é um mal necessário. Um horrível esforço de martírio altruísta foi projectado para o nosso modo de viver. Consistência de perder muitas horas, encontrar a velhice precocemente, perder a saúde. Hábitos de regozijo incutidos sem apelo devassam, grassam na lotaria das ruas que já não o são, nunca o saberão. Os prémios principais são buracos e lodaçais. Ruas escavadas devido à intensa prospecção dos malignos sentimentos petrolíferos.
Oh! Que noites, que festivais, que mães com séquitos de pardais, para onde caminhais?

A criança adianta-se, nefasta apressada. Pára, volta-se, incita o andamento. A mãe carrega a idade da ditadura do sofrimento, sem lamento. Na cabeça, uma carga que não alivia a sobrevivência da inconsciência do governo petrolífero. Nas costas, sobrecarrega o peso recente da infelicidade nascida, adormecida. Pela mão, a contrariedade da criança arrasta-se esforçada na contra-mão do retirar o pão da boca. É a mãe, das mães dos agora colonizadores negros da negra miséria. Dos indistintos dias, das inextinguíveis noites orgíacas das políticas palacianas. Ó negra miséria, decerto no incerto caminhas. Nas ruas alagadas de campos petrolíferos, pastos negros, prados negros que não servem para comer, nem para beber.
Muitos poetas, advogados, economistas e poucos engenheiros. Povo analfabeto nunca será independente. Conhecimento é liberdade. A miséria é negra, da cor do petróleo. O poder temporal é momentâneo, o espiritual eterniza-se.
Atirei o meu telemóvel para o lixo. Evito os assaltos, quero caminhar normalmente, não quero ficar sem vida eternamente. Ganhar o presente dos assaltantes e perder o futuro. Apesar de muitos seguranças métricos que guardam o que não lhes pertence, a intranquilidade é palustre. Muitos seguranças, muita insegurança. Tudo tão inconfortável, abundante. O lixo é superabundante, os baldes das águas imundas cozinham-no. Colossais colunas de lixeiras esculpidas como os estábulos de Augeias. Jingola contratou Hércules para a derradeira décima terceira tarefa… acabar com o lixo. Seria pago com vários tosões de oiro. Não conseguiu, desistiu, desamarrou-se furioso porque vinte e oito assinaturas eram comissionadas. Não sei, não sabemos, ninguém me consegue explicar, entender que regime é este que nos governa. Acho que é um regime com cheirinhos de todos os governos igualitários, totalitários existentes no mundo. Universalizado, engalhado.
Passa a escolta vulgar de invulgar administrador. Um sacerdote lapidar, escoltado de fingida bondade, desapercebe-se da trama que os doutores do nosso destino escorregadio lhe invectivam. A escolta do medo, insegura, medrosa, despenca no desprotegido, potencial inimigo disfarçado, que atrapalha, inibe a passagem do mais que parecido cortejo funéreo. O sacerdote é espancado e abençoado pelo poder intemporal. Imolado no cumprimento de ordens superiores, sancionadas por inferiores. No estabelecimento do ritual satânico do Politburo Jingola, barbárie enfeitiçante de imitação da selva civilizada. Os peregrinos deslocaram-se dos seus santuários. O embondeiro secou a mabuba também.
No reino Jingola, Estaline revive, e claro, as deportações também. O Grande Líder já criou os gulagui tropicais que sacanamente o Politburo chama zangos. É puro, é nacional e eles gostam. Assim, o extermínio dos jingolanos está assegurado, para gáudio dos terroristas imobiliários e especuladores internacionais.

É uma das suas músicas mais barulhentas preferidas, e impropera para o som desconjuntar os sentidos… elevar a identidade cultural. Mostrar a mitologia não ancestral, mas a actual, dos lençóis petrolíferos, dos campos diamantíferos, das vastas extensões de terras incultivadas, famintas. Ela desvenda no corpo a dança, mas esqueceu o desvendar do mistério da luta de libertação que se actualizou na nacional destruição.
Ouvir música é como uma grande trovoada, e não são necessários o ribombar de mil trovões e a cegueira de mil raios alaranjados. Condimentados pelas máquinas monstruosas dos novos construtores que furam passeios, ruas, terraços, que destroem e reconstroem os solos, a solo e em conjunto dos escapes livres das rápidas motorizadas, autorizadas para desafiarem Júpiter. Música tradicional importada, dançar, se embebedar, se drogar.
Como o pai de Voltaire hoje diria: uns filhos em prosa, outros em verso. Os pais serão sempre chamados caducos e calhambeques, porque não alimentam as loucuras dos seus filhos. Já não temos filhos. Duvido que alguém os tenha. Serventes de Brutus, para roubarem e assassinarem pais. Para dançarem, beberem e dormirem.

Olhei para o que restava naquela casa-casebre. Duas ventoinhas que funcionavam com sorte. Estavam entrevadas, avantajadas de ferrugem. A televisão trabalhava à pancada. Por causa das falhas da energia eléctrica o frigorífico ligava, desligava. A cama descuidada, sempre desabava na hora do deitar. Dos tetos da casa de banho, da cozinha e do corredor, os pingos de água comodamente destruíam o sonho de um lar. Deixaram de ser tectos, eram grutas com quase estalactites. O casal sexagenário trabalhou e lutou pela sua pátria. E parvamente na tal luta da libertação, e agora pela pátria e família abandonados, resta-lhes o consolo da sonoridade musical, o raiar dos momentos românticos, do mais um recenseamento… para ficar tudo na mesma e os mesmos receberem sempre as mesmas pensões.
Tanto petróleo e diamantes! Quanta mais riqueza mais pobreza. Onde os cofres estão muito cheios, há muita escravidão. Escravos tecnológicos das novas tecnologias. Escravos dos modernos Cavalos de Tróia. Oiço as viuvinhas que saltam nas árvores, mostrando o manto do seu canto. Nunca acreditarei no Homem, enquanto existir um só ser humano que passe fome.
A minha caminhada prossegue. Vejo que a macroeconomia se desenvolveu, o que permite a muitos jovens lavarem carros nas ruas. Destas escolas de lavagens sociais nascerá o novo homem, adaptado à nova vida. Com os panos enxugam a chaparia, mais um produto acabado está pronto para entrega. De cigarros embocados trocam impressões.
– Sabes onde está o rei?
– Sei! Está de visita privada nos brancos.
– Deixou-nos sem luz.
– A minha mãe quando paga a conta, reclama que ficamos muitos dias às escuras, e que o valor a pagar devia diminuir, mas é o contrário. Sobe muito.
– Quando o rei voltar seremos mais iluminados.
O crescimento económico é factual. Um bando de lobinhas sirigaita o desenvolvimento da economia. Na precoce rendição infantil de crianças da prostituição, ratinham a perseguição dos lobões
Na entrada de um prédio ouve-se barulho metálico. Um jorro de água vertical surge. Uma jovem aborrecida quer saber o que se passa.
– Mingo, porque é que você fez isso?!
– Parti a torneira com uma pedra porque não me querem dar a chave do cadeado… tenho carros para lavar!
– E quem vai limpar a inundação?
– Não sei!
Duas motos rápidas passam em grande velocidade. Sem escapes, o barulho provoca dores de cabeça. Os alarmes dos carros estacionados disparam. Tapo os ouvidos com os dedos. Na janela de um prédio o ar condicionado arde. Os basbaques à distância acotovelam-se. Alguns afirmam com desmesurado orgulho.
– É bem feito! É bem feito! Gostam de morar nos prédios!

gil gonçalves foto 1Upanixade – Gil Gonçalves

 

(Uma imagem vem chocando as pessoas nas redes sociais. Um bebê mantido refém por ser Cristão. Será mesmo que acreditam que já existe uma convicção de fé no pequenino? Particularmente sou uma pessoa com bastante crença em Deus, porém, em seu nome é cometido loucuras e atos que só podem ser infernais! A legenda da foto em Árabe dizia: Nosso refém mais jovem entre as seitas hostis de Kessab. Kessab é uma vila predominantemente cristã na Síria. Se alguém souber mais informações disponibilizem nos comentários! In Quer Café?. Facebook)

Reino Jingola, um reino onde tudo é ilegal.

Que infortúnio assaz interessante. O dom que os humanos conservam desde a ancestralidade. Não o esquecem jamais. A morbidez mortal da desinformação nos seus genes. A ordem guardada, disfarçada, escondida, sempre à espreita na janela das suas mentes, que dela sai a pontapés: matar, matar, matar! Se não resulta, salta a alternativa da hipocrisia que se transforma na inutilidade da mentira. Perante esta verdade vem a calúnia que dá vida ao ódio, à maldade. Para galantear este apogeu, para se afirmar defronte dos vencedores, para iludir a sua mente doentia, elimina com a morte aqueles que lhe deram a projecção para os pedestais da vida. Esta é a sujeição genética, a saga dos vencidos. Tubarões mortíferos que aniquilam o Caminho sem casebres.
Esta senda contínua ninguém consegue parar. Astutos ratos no silêncio das noites. Se mais obscuras melhor. Sombras profeticamente dissimuladas nascem dos seus sonhos, das noites em que não dormiram. As multidões seguem-nos estupidificadas, adoram-nos, imolam-se no altar já inventado. Triste horizonte da camuflagem humana. Viver para adorar, a fome semear.
Não é só guerra e fome que existem nos intervalos do futebol-arte.

Uma coisa que vi e nunca compreendi. As pessoas gastam quase todo o tempo das suas vidas para conseguirem qualquer coisa para comerem. Isto não faz sentido, é absurdo. Ninguém que se preze nasceria, para viver assim tão infeliz. Qual é a alternativa?!
Existem máquinas que fazem qualquer trabalho. Decrete-se que os humanos devem obedecer às coisas espirituais. Treinarem e desenvolverem a mente. Diariamente, pelo menos uma vez, respirar fundo, relaxar, fechar os olhos e não pensar em nada durante um minuto. Para começo isto é extraordinário. O nosso cérebro pensa dia e noite, basta parar um minuto para a mente descansar.
É contrário à vida nascer, crescer e trabalhar para aumentar a riqueza de meia dúzia que nos escravizam há muitos milénios. O trabalho nas fábricas, essa escravidão moderna, deve terminar imediatamente. Acabemos com os prédios, com as estradas de asfalto, com os enlatados, com os plásticos, com o petróleo. Vamos plantar árvores, multidões de plantas, limpar os mares, os rios, as florestas e viver de acordo com as leis da Natureza.
Não é necessário ir a um circo para nos rirmos com os palhaços. Basta olharmos por exemplo para a TV e ouvir um embaixador dos países democráticos falar das relações de amizade entre dois povos.
É a melhor saída para salvar o que resta, o que ainda vive. Acabar com a palavra empresário para começar. São estes os demónios que sobreviveram na batalha dos céus contra Gabriel, e caíram na Terra dissimulados. Os sofrimentos da humanidade, a fome, estão nas suas mãos. Devemos votar contra eles. Serviram-se do Cristianismo, apoderaram-se do Santo Graal e dos seus segredos para nos dominarem. Estes são os iniciados da maldade humana, por isso se explica que ao longo dos tempos fossem criadas várias sociedades secretas para evitar a extinção da raça humana. A luta da humanidade, as revoluções, as guerras… desenvolve este antagonismo milenar: sociedades secretas criadas para resistirem ao aniquilamento dos poderes ditatoriais, à proibição do desenvolvimento das ideias. Foi assim por exemplo contra Voltaire.

Andamos, movemo-nos como seres invisíveis. Ninguém dá conta, sente a nossa presença. Se fortuitamente alguém tropeça na nossa sombra, volta-se, espreita, aguarda indeciso. Descobre que foi algo… como um nevoeiro repentino que surgiu do nada. Pensa que foi talvez alguma ramagem de árvore incomodada pelos transeuntes anónimos que deseja relembrar os tempos há muito passados, esquecidos, quando as folhas verdes que caíam se veneravam, amadas, deusas geradas pela Terra-Mãe. A multidão de pessoas a caminharem habitualmente sem destino é muito impessoal. Os filhos cruzam-se com os pais, não se reconhecem. Melhor, fazem gestos de jardim zoológico. Porque entre seres humanos nas ruas e animais em cativeiro não há nenhuma diferença. Melhor, apenas uma: a prisão das espécies em cativeiro é pequena, as grades da prisão da espécie humana são imensas.
Alardeamos com prazer que acabámos com a escravatura. Quando na nossa mórbida ingenuidade proverbial não queremos aceitar a verdade suprema: Somos escravos eternos das necessidades fisiológicas e biológicas do nosso corpo. A nossa mente é pobre, humilde servidora perante a mais elementar necessidade da fisiologia humana. Esta é a mais atroz servidão humana.

Atraído pelas teclas patéticas de um piano, som imortal, o homem da rua não consegue distinguir de onde vêm, mas mesmo assim pára hipnotizado. Sublimes marteladas nas teclas despertam a sua consciência. Sente na alma uma luz inexplicável. O seu cérebro tenta transmitir as sensações agradáveis da melodia que paira. Consegue arrastar, parar no seu caminho mais um escravo eterno. Teimamos, não aceitamos, que o perfume musical nos escraviza. Tal como o amor. Só que por mais que tentemos não conseguimos explicar a doçura musical dos sons que compõem, que nos levam ao mais elementar caminho da existência humana: O amor do início dos tempos da nossa mocidade.
O nosso pensamento é imaterial, surge do espaço vazio. Entretanto consegue materializar objectos, utensílios, o que inventamos e utilizamos. Na dúvida se Deus existe, creio que o nosso pensamento é uma resposta. Se criamos matéria a partir do nosso pensar, eis a explicação para a existência do divino. Deus não é matéria, a nossa mente também não. Portanto o nosso pensamento não é Deus. Sim, sem nos darmos conta cumprimos o mais elementar da nossa existência: a nossa alma etérea cumpre a função do Criador Bigue-Bangue, participa da grandeza e pequenez do Universo. A nossa inspiração é o cumprimento de ordens Superiores dimanadas da central de controlo, situada algures no Universo. Esses lagos profundos onde repousa a consciência, a essência da vida humana. Uns são de águas transparentes, outros de águas pantanosas. Alguns, poucos, são de águas calmas. Outros, a maioria, são de águas agitadas, violentas. Os violentos pedem aos ventos que façam tempestades e aniquilem os espíritos das águas da calma sabedoria. O conhecimento agita o violento. Como o frio glacial que nos obriga a procurar um refúgio acolhedor. Os lagos humanos da violência e da intolerância perturbam-nos o sossego. Até nas noites a justeza do sono é-nos negada, interrompida, porque um lago secreto transbordou. A onda da nova guilhotina galga para o nosso leito e corta a cabeça, mais uma, de qualquer recente consciência. Como um navio atracado no cais da amargura esperada e depois assolado, levantado e transportado no ar pelas trombas furiosas, repentinas de um furacão elefantino. E neste manicómio mundial com milhões de desempregados, os bandidos espertalhões especuladores dizem que a economia mundial está a estabilizar. Prova disto é a subida dos preços do petróleo. E ninguém os prende porque já não existe lei.

Apesar do corpo cansado, usado, velho pelos anos do tempo, a mente está rejuvenescida. O ditador usa o corpo são na mente insana. Como plantas daninhas que vituperam os jardins suspensos desta Babilónia. Por mais que tentemos não conseguimos evitar a perseguição de Robespierre. O reinado do Terror persiste, insiste, não nos abandona. Que tempos estes! Não, a História ensina-nos que sempre foi assim. O ser humano é o símbolo, o culto do Terror.
Quando acabar, a Natureza rejubilará, cantará um hino de louvor. As árvores não ficarão estáticas, mover-se-ão de um para o outro lado como sempre fizeram. A chuva cairá e as águas seguirão o seu curso normal. Não haverá diques que as perturbem. Aos rios livres de poluição voltarão as fadas e os espíritos das águas renascerão. A Natureza reencontrará a liberdade, voltará à normalidade. Já foi dado ao ser humano o tempo mais que suficiente para respeitar os seus semelhantes. Não, não me refiro aos homens, porque entre estes não há leis que funcionem, falo duma simples ave que baixa o seu voo, encontra-se com um bípede e é abatida sem explicação. O que está em causa é o seguinte: a Natureza não pode compartilhar a sua sã existência com seres vis que se deleitam em exterminar tudo o que se move.

Encontrei a manhã a meio no embarcadouro do Kapossoca. O céu obrigou o dia a escurecer. A água desertou do firmamento e o horizonte enevoou-se. Chuva intensa, centimétrica, parecia milhões de meteoritos que abriam crateras transparentes na superfície neptuniana. Conseguirei chegar a Tule, para lá de Viana? Muitos perigos me esperam mas terei êxito nesta epopeia. Quando lá chegar admirarei as Colunas de Hércules de Viana. Não sei quem foi o propositado que chamou tal nome a duas imensas montanhas de lixo.
Para além delas… é o desconhecido… alguns mercadores Fenícios que de vez em quando aqui chegam, dizem que para lá das Colunas de Hércules de Viana existem dezassete reinos governados por pretores. A informação que dão é muito escassa, não se sabe o que lá se passa. Em criança ouvia falar muito sobre esses reinos desconhecidos, esquecidos, abandonados. Que ninguém se preocupava com eles. Comecei a sonhar que seriam o continente perdido da Atlântida, de dezassete Atlântidas.
Tantos carros para poucas estradas esburacadas, permanentemente engarrafadas. Nunca conseguirei entender porque é que os Jingola não apreciam bicicletas. Combinam com os séculos, com as cargas na cabeça sem rodas, sempre à roda. O âmago do meu espírito tenta libertar-se da desordem circundante. O lixo encolerizante une-se às árvores derrubadas pela força inumana. Os canteiros de flores perderam-se na imposição de outros de obras concretos, dos novos construtores dilectos. Outros edificadores e muitos comedores de cães, gatos e de tudo o que se mexe. Cosmovisão genética rudimentar, truncada. Passam os desgovernados anos, não mandatados continuam os tiranos. Digam-lhes que quem aniquilar uma árvore será condenado a plantá-las até ao fim da sua vida. Ah!.. Muitos bancos, muitos financeiros, muitos corruptos, muitos especuladores, muitos aventureiros. É mediocridade quando não se abordam questões com profundidade. Quanto mais os políticos falam, mais são estudados e menos escutados. Muitas palavras muitos devaneios. Os cérebros dos ouvintes saltam para outra plateia. Abandonam os políticos de corpo vertical e alma horizontal. A figura da África Negra é uma aventura propícia para aventureiros. Sempre concordantes com a pobreza de espírito dos governantes. E o interlúdio da pobreza e da fome prosseguem em todos os momentos, nos cartazes com fotos gigantes que iludem os eleitores votantes. Neles, abusam as palavras democráticas: onde há pão e livros, há democracia.

gil gonçalves foto 1Upanixade – Gil Gonçalves

 

Poucos meses antes de 1975, num dos seus comunicados, o bureau político do MPLA já nos garantia: «E assim o nosso povo continua na miséria.» Passados quase cinquenta anos a miséria continua, mais atroz, total e completa.

A História repete-se. Em particular Cabinda, e no geral Angola, estão exactamente como a Argélia no tempo do colonialismo francês.
«Angola não é só Luanda. Anónimo disse… Por favor socorram o Povo da Província do Zaire. Socorro isto é demais. Convido-vos visitar o Zaire para conhecer Angola Profunda. Pelo menos terão mais notícias e Angola deixará de ser apenas Luanda. 18 de Abril de 2010 In morrodamaianga.blogspot.com/

E os campeões da democracia são antigos amigos, apoiantes de regimes corruptos ditatoriais que prendem e eliminam opositores políticos ou quem exprima opinião contrária. Viver é subir nas montanhas do íngreme sofrer. Viver é o eterno esperar do desesperar até morrer.

Não! Nunca serás convertida mas, uma estátua ser-te-á erigida, dirigida. Converter sons é comunicar com a nossa alma. O mundo está superpovoado e contudo sentimo-nos muito sós. Continuamos opressos pela solidão. Estamos, ocultamos que continuamos sós neste Universo muito próximos das multidões, mas distantes do que amamos.
Restam-nos as prisões dos nossos corações. Os inventos que se fazem encurtam as distâncias. Viajamos muito rápido para qualquer ponto do globo, mas os nossos corações continuam no flutuante, hesitante mais longínquo.
Não! Não serás convertida, espremida. Estás sempre omnisciente… e aflorada, inundada com beijos de paz das sementes progenitoras das saudades inclementes. Como um navio a navegar no mar da saudade.
Nos próximos tempos será impossível conceber planos a longo prazo porque nos embrulham em papel doirado. Prosseguimos na marcha inóspita do final de mais uma civilização. Porque nascemos na bênção da ilusão. Os especialistas da malvadez estão no trono outra vez. Tentamos, lutamos para sermos felizes mas as doses letais da intolerância política, religiosa, social e económica fortalecem-se. Os poderes públicos dos homens que nos desgovernam são como o pandemónio do trânsito enlatado, do que resta do serpentear das cidades. Esta é outra centúria de corrupção, da conspiração genética que abrigou, colocou imberbes no poder. E vão arruinar, arquivar esta civilização. Ah!.. E por quanto mais tempo assim continuarão (?)
Sendo maldoso por natureza, qual é a utilidade do ser humano?
E houve um tempo, este, actual, que inexplicavelmente só nasciam néscios. O tempo do contrariamente ao século das luzes, esta é a centúria da escuridão. Até a velha democracia da Álbion sucumbiu. Precisamos de um novo sistema político. Mais democracia não, nunca, jamais.
Não me recordo quem me disse que: A ditadura organizada dá-nos algum pão, mas tira-nos a liberdade. A democracia dá-nos a liberdade, tira-nos o pão e congela-nos as contas bancárias. Talvez sejam meras conjecturas de políticos que habitualmente nos conduzem à desgraça. Lembro-me da propaganda deles: O programa político não destoava, resumia-se: «queremos o nosso dinheiro!» Vi que se gastavam milhões, biliões de dólares na compra de jogadores de futebol. E os esfomeados nos campos relvados sentiam-se no Olimpo, convidados pelos seus deuses da bola. Nunca imaginei um reino, com golpes de estado diários, permanentes. A maldade não triunfará. Temos que esmagar a infâmia.
Concluí que: se não consigo sobreviver num mundo de absurda maldade, é porque sou autista. O maior erro que cometi na minha vida… foi ter confiado nos seres humanos. Então, comecei à procura do amor perdido. Esse amor Borgiano em que: todos os pontos do amor estão contidos num só ponto.
Donde vêm o pensamento? Como se originam as paixões amorosas? No ser humano, no erro da Criação, da evolução. E continuam a produzir milhões de máquinas para nos destruírem. O planeta Terra estava feliz, organizado, até que apareceu a tal coisa que alguém se lembrou de chamar de ser humano. A espécie que à chegada só pensa em destruir.
Se descobrir a origem do pensamento criativo serei imortal. À procura da origem do pensamento criativo… está tão distante, está tão próximo, está aqui ao meu lado, tão próximo de mim… é o amor. Pensamos porque amamos.
Os nossos semelhantes conseguiram uma proeza notável, digna da sua espécie: Proibiram-nos usufruir dos prazeres da Natureza.
Os animais respeitam os seres humanos, estes desprezam-se imenso. Exterminam-se, abatem tudo que se mova. Somos os primeiros da sua lista. Têm a fatalidade genética, como os adoradores do Mal, que sentem imensa felicidade em ver sofrer o seu semelhante. Isto faz parte do seu código genético que é: 000 ou 0,000.

Em 1835, Thomas Babington Macaulay, decidiu acabar com os valores literários da Índia. Pretendia que a sua herança milenar desaparecesse da civilização.
Um comandante inglês exterminou várias tribos índias durante a colonização americana, com o vírus da varíola em cobertores.
Façamos o homem à nossa imagem, conforme à nossa semelhança; E criou o homem à sua imagem: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a;
O horrível que existe nas ditaduras é o separar das famílias. Sentem imenso prazer em destruir tudo o que seja laços familiares. Há quem pense retirar os genes da maldade à nascença. A História da Humanidade é a história da selva humana.
O que alguns homens inventam para dominarem os outros não pode ser levado a sério. Como a visão apocalíptica… quotidiana, da segunda vinda de Cristo, eternamente adiada.
Ingenuamente perguntei a um médico amigo porque é que o famoso cirurgião cardíaco, Dr. Christiaan Barnard, (1922-2001) faleceu de um ataque cardíaco. Elucidou-me: «Com a idade o coração fica velho… cumpriu a sua missão».
E o amor também desapareceu dos radares.
É fácil de ver, aliás nota-se à distância. Depois da morte do rei, Angola por direito de sucessão passa inteirinha, dividida pelos filhos, para os príncipes herdeiros e Eleitores. É uma democracia reinante.
Os tempos mudaram muito, estão sempre a mudar… o ser humano não… piorou muito. Na certeza que a família sucumbiu, está inexistente. Cada um que se safe, é a regra de vivência que não me lembro quem inventou. Claro que é fácil de saber quem foi. De certeza que foi um banqueiro, um especulador financeiro ou imobiliário. Apesar de obrigados a comermos toneladas de informação diária, no entanto estamos sós. Abandonados na grande epidemia da fome e do desemprego. São milhões ou serão biliões? Os números sempre a aumentarem! Era esta a promessa dos milagres técnicos da ciência para o ano 2.000! Aguardo o fim dos meus dias, não é isso que sucede a todos?!
Lembro-me de Mark Twain e da comparação que fez entre um homem e um rato: «Não… seria fazer uma injustiça ao rato.» E entre um homem e um cão: «Se acolheres um cão faminto e lhe deres conforto, ele não te morderá.» «Quando chegares à porta do Céu, deixa o teu cão do lado de fora.»
O que interessa é retratar a maldade do ser humano. Pessoalmente se me dessem a escolher entre um homem e um leão, escolheria logo o leão. Porque o conheço bem, enquanto que o homem é cheio de manhas, e só demasiado tarde o conhecemos, o desvendamos. Porque é que os ratos invadem as casas dos homens? Porque estes roubam, fazem concorrência desleal aos ratos, imitam-nos, e os ratos descontentes não aceitam a exclusão social.
Quer queiramos quer não, participamos sempre na guerra de Tróia. Tudo o que até agora se passou, desses tempos, são imitações que teimamos nelas persistir. Quem não conhecer a guerra de Tróia, fatalmente sem se dar conta terminará nessa tragédia. Este é o destino, o nosso destino. Primeiro o Estado Novo, depois a Revolução dos Cravos, e a miséria agenda-se. Não há libertadores, descolonizadores. Há renovação de opressores nas lutas de libertação. Em Jingola, o cidadão honesto que goste de trabalhar, tenha ideias para o bem da comunidade, que revele sabedoria, o poder acusa-o de antipatriota, e sumariamente julgado, executado com a pena de reclusão.

Chegaram as duas horas da manhã. Vou para a janela atraída pelo barulho da chuva. Mas que grande chuvada. É tão imponente que a rua parece um rio. Faz-me lembrar a minha epopeia, o meu reino que ainda vive na eternidade do passado, confunde-se ou convive com o presente à procura do seu futuro. Posso afirmar que tenta sobreviver das ruínas arqueológicas. Vivemos perdidos no tempo presente, misturados, baralhados no passado e no futuro. Não é necessário estudar muito para saber que há oceanos de abundantes idiotas.

Somos tão pequenos perante tanta imensidão. E no entanto persistimos que somos gigantes, que somos os melhores. Duvidamos, não aceitamos as nossas origens. Só quase na hora da morte nos lembramos da inutilidade da nossa vida. Nessa hora, nesse momento, regressamos às nossas verdadeiras aspirações, mas é demasiado tarde. Queremos voltar, mas o regresso está eternamente adiado. Então durante uns minutos, uns segundos, lembramo-nos finalmente da vida. Vivemos para recordar uns ténues momentos antes da morte. Isto é a verdadeira vida.
O sucessor de Omar Bongo é o seu filho. E em Angola?!

Tudo concebemos para nos entristecermos. Desde o mais microscópico ao mais gigantesco uma luta incessante pela sobrevivência no Universo acontece. Para obter energia, assim que a luz solar surge, é a corrida na procura de algo para comer. Vale tudo, porque as espécies animais, as estrelas, os planetas, as galáxias, perseguem o que lhes dá a vida. Uns lutam de dia, outros à noite. Vinte e quatro horas sem eternidade, a luta pela sobrevivência desperta, alerta.
O vivo marulho da vida das ondas do mar que nos persegue. O chocar constante com a areia das margens que ciclicamente se desfazem, e depois voltam à normalidade sem intervenção humana. A Natureza cumpre o seu destino, o ser humano altera-o, adultera-o. Como vingança, o mar apela para os seus companheiros em terra, e despeja a sua fúria contra os que o ousam desafiar. Assim foi, assim será. A aleivosia à morte é característica dos humanos. Cruel destino sem saída. Nascer, não viver.

gil gonçalves foto 1Upanixade – Gil Gonçalves

 

«Há muitas maneiras de matar um homem. Uma delas é não deixá-lo dormir. Estou convencida de que não morre por cansaço, mas porque não pode sonhar.» Eugenia Rico in elmundo.es/

O governo encalhou-se e encalhou-nos. Escolhe sempre um porto muito porco, inseguro e nele continua emporcalhado. Na espera receosa, brumosa, que outra liderança o desencalhe, o asseie e não mais nos enxovalhe. E a nobreza acastelada sorri, observa, desdenha dos imensos currais de porcos e monumentais prostíbulos.
Está mais que claro que um governo que governa totalmente destoado prossegue na senda do convite a estrangeiros sem escrúpulos, aventureiros macabros que nas calmas acabam por dominar tudo e todos. Claro que as consequências posteriores adivinham-se desastrosas. Vê-se disso por todo o lado noutros teatros mas, o Politburo não tem capacidade de enxergar, a solução final é inevitável, lamentável.

«Os 600 autocarros importados da China: As informações disponíveis dizem que salvo raríssimas excepções, esses 600 autocarros estão a sofrer avarias, principalmente ao nível da embraiagem e da caixa de velocidades, sobretudo quando elas são manuais, como acontece a uma percentagem significativa desses veículos.» in Semanário Angolense

É um poder que jaz, não faz porque abrupto se complica, aterroriza a vida das populações. Só existe uma explicação para tão grande desastre governamental. A estrutura da hélice dupla do ADN indetermina, corrompe as características genéticas dos indivíduos que nos governam… por todo o mundo.
Ela, a zungueira, saiu de manhã bem cedo. Reuniu todo o dinheiro e carregou-o. E lá foi para a compra habitual, matinal, das bananas para revenda pelos passeios desventrados, empoeirados, emporcalhados, lixados. Os meliantes esperavam-na e: «Estás colocada!». Lá se foi o dinheiro ganho honestamente, doze mil kwanzas, porque o dinheiro que se ganha teimosamente, horrendamente na desonestidade, esse ninguém rouba. É impossível viver assim.
E as milícias de autodefesa esperam, serão criadas, como é norma. A África negra das milícias, porque os governos (?) oprimem, extinguem as populações. Então nascem as milícias para sobreviverem, lutarem contra a anarquia governamental. É a anarquia contra a anarquia. E lá vão para a extinção anunciada.

Como disse Mário Vargas LLosa em elmundo.es/ «Muitas minas estão agora nas mãos desses bandos, milícias ou do próprio Exército do Congo». Paz, ordem, legalidade, instituições, liberdade. Nada disso existe nem existirá no Congo por bom tempo. As guerras que o sacodem, deixaram de ser ideológicas (se alguma vez o foram) e só se explicam por rivalidades étnicas e cobiça do poder de chefes e chefitos regionais ou a avidez dos países vizinhos (Ruanda, Uganda, Angola, Burundi, Zâmbia) para se apoderarem de um pedaço do pastel mineiro congolês. Mas nem sequer os grupos étnicos constituem formações sólidas, muitos se dividiram e subdividiram em facções, boa parte das quais não são mais que bandos armados de foras-da-lei que matam e sequestram para roubarem».

E tão habituados no poder de tantos crimes realizados. E os tribunais silenciados sentenciam inocentes condenados.

«O problema reside, sim, na qualidade dos docentes, que é muito discutível até aqui em Luanda. Para ter uma ideia do que se passa, digo-lhe apenas que sei de docentes que se ajoelham diante de estudantes, pedindo-lhes para não denunciarem a sua incompetência… Há-os, sim. E olhe que, hoje, alguns desses docentes sem o mínimo de competência dirigem departamentos e alguns outros já dirigiram até faculdades…» * E exigimos o preço do barril de petróleo a 70 dólares senão… emigramos para a Somália e vamos pirateá-los.
Quem promete a liberdade e depois no poder a retira, a enxovalha, é apenas um bando de canalhas. De seguida cria-se uma força militar, genuínas milícias, privatizada para protecção do eterno poder. A população espera-a a efémera liberdade do desemprego, da miséria e finalmente a morte pela fome.
Presumia-se, certificava-se que o mundo ficaria democratizado. Mas que vejo? Está tão despedaçado, tão tiranizado, tão triunfado. Então onde está, para onde foi a democracia? Paira por aí, algures violenta, virulenta. Por incrível que pareça as tiranias reforçam-se no fosso fétido, nos amantes das democracias bancárias do primeiro mundo. E Luanda banalizou-se… em mais um país (!) das inúteis conferências.

Agora tenho este pesadelo de viver rodeado de tantos criminosos. Da maneira que as coisas estão e andam, Luanda está apenas apta para criminosos e assassinos. É fácil de imaginar o que sucederá nos dias vindouros.
Fazem obras (?), destroem os passeios. Lavagem de carros na via pública, numa ode às águas que destroem o recentemente mal construído. Barulho de música o mais violento possível dia e noite. Baldes de águas imundas lançadas a esmo das varandas dos prédios. Incríveis invasões de mosquitos que nos perseguem dia e noite para chuparem o sangue que nos resta. Geradores eléctricos que fumegam, nos assassinam lentamente e barulham dia e noite. Motas com escapes livres que imitam tiros, dia e noite. Conseguir descansar, dormir o suficiente é milagre. Vivemos num vasto curral de concentração de porcos. Não há lei, cada um dita a sua, particulariza-a. A lei da feitiçaria domina. Luanda não é um país, é uma cidade-falhada.
Tudo começa a findar sob domínio estrangeiro, o que trará graves consequências para a corda bamba dos desempregados. Muitos estrangeiros opinam sobre Luanda a torto e a direito. E são motivo de chacota porque não entendem nada dela, e claro de África. Só falta colocar no poder um presidente estrangeiro. O que pelo mover dos tentáculos de momento, não surpreenderá.

«Onde os últimos anos trouxeram consigo uma clara promoção da incompetência. Para ser reitor, vice-reitor ou decano não bastará ter um doutoramento, até porque se sabe que existem doutoramentos cujas teses nunca foram depositadas na biblioteca da universidade, como manda a regra académica. Porquê? Porque foram teses cabuladas ou foram teses escritas por outras pessoas que não os autores cujos nomes aparecem na capa.» *

Empregos só para estrangeiros. Eles chegam, fazem a reestruturação (?) da empresa, despedem os luandenses e mandam vir familiares, amigos e conterrâneos. Isto está uma grande trampa daquelas. Está tudo descontrolado, eclipsado. Agora então com a moda em vigor de não pagarem, atrasarem os vencimentos… é do sistema político sem sistema bancário.
Fundamentalmente a questão é a seguinte: escusam-se na desculpa prévia, famosa do: ninguém quer aturar negros. Servem para fazerem recados, trabalhos de limpeza e similares, ou venderem qualquer coisa nas ruas. Porque durante quase meio século, a formação que beneficiaram foi o analfabetismo. E continua-se a formar analfabetos.

«Universidades cada vez mais desorganizadas. Parecem estar mais viradas para o lucro do que para a didáctica. É opinião comum que as universidades privadas em Angola são uma autêntica pouca-vergonha, verdadeiros centros de anarquia do ponto organizacional, falta-lhes de tudo um pouco, desde laboratórios, salas de informática, até um simples bebedouro e ainda se arrogam ao direito de se chamarem universidades?» In Semanário Angolense

O mais inebriante disto tudo é o caos da energia eléctrica. Mas, os estrangeiros – sempre monumentalmente pagos – afirmam categoricamente que Luanda é o único país (Luanda é um país e a sua capital é Angola) do mundo que cresce, se desenvolve. A única economia do mundo que salta para além do planetário. Só pode ser uma economia de ler nas estrelas. E tudo não passa de barbarismo, chinesice.
Nas traseiras de cada prédio esconde-se um crime.
Entraram na OPEP para ostentarem a vaidade da presidência rotativa. E foi mais um erro grave acometido. O petróleo jamais será o que antes foi. As coisas mudam, as modas também.
Que futuro tem Luanda, onde toda a gente rouba e se roubam?!
A estrutura marxista-leninista-estalinista oleada, funcional, terrifica-nos. Estávamos convencidos que o pesadelo terminou. Mas não… os dráculas continuam a chafurdar no nosso sangue. Inventaram outro passatempo: Para fazer qualquer coisa é preciso uma conferência nacional ou internacional. Sempre as mesmas conferências, com os mesmos conferencistas. Na resolução sempre dos mesmos problemas sem solução. Fiscais do poder popular da Luanda que assoma, clama pela Somália africana q.b.

«Na obra, “Viragem” de Castro Soromenho, num diálogo que se desenrola entre uma neta e a sua avó, vindas de Portugal na era colonial, a neta disse à avó: «A África seria melhor se não tivesse tantas enfermidades, analfabetismo e outras malícias.» A avó respondeu: A África é África, por causa desta perversidade, se não tivesse tudo isso não seria África minha neta…» In Domingos da Cruz no Folha 8

Tudo é um absurdo, um sem sentido. Governantes idiotizam-se no poder, solenemente paramentados pela superstição e embuste da religião. E doses cavalares de estádios de futebol. É isto o desenvolvimento social e económico nacional e mundial.
Democracia é o monumental roubo mais bem organizado de todos os tempos à escala global. Democracia é o sistema político inventado por políticos, banqueiros, corruptos e especuladores. A democracia moderna não passa de uma bizarra ditadura. Na realidade o que existe é uma subtil associação de criminosos devidamente legalizados perante a lei. Os partidos políticos não passam de associações de malfeitores porque no poder nos matam à fome, enquanto vão enriquecendo facilmente devido aos milhões de desempregados que desempregam. Perante tal, quem ainda ousa falar de democracia? O que compete aos trabalhadores é tomarem o poder e acabarem com a corja de políticos, banqueiros, corruptos e especuladores. Isto sim é que é democracia! Os bancos têm que ser nacionalizados, ficarem em poder do Estado, nunca jamais nas mãos de privados porque subvertem o poder, promovem o caos na economia mundial. São como confrarias do mal.
Democracia é concentrar toda a riqueza ilícita no poder de meia dúzia de paspalhões. Sim! Porque eles dizem-se que quem é rico é inteligente. Pura mentira! O rico roubou, espoliou. Não é assim que se explicam os exércitos moribundos de esfomeados? São ricos porque as leis protegem-nos para nos roubarem e reforçam-nas com forças policiais e militares. Matam-nos, aterrorizam-nos com a fome, ao mesmo tempo que nos lançam cães polícias, cavalos, polícia de choque, grupos especiais de assalto. Toda a parafernália militar jamais vista. Democracias de porcos, de imbecis e canalhas.
* In Paulo de Carvalho, sociólogo, em entrevista ao Semanário O PAÍS

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Parafraseando: violentas se dizem das populações espoliadas, mas não se diz violento o poder que as espolia.

Introdução

Vim ao mundo no reino Jingola, mais um quilombo de concentração de renda… algures no Golfo da Guiné, onde o cinismo e a hipocrisia se institucionalizaram de tal modo que facilmente ultrapassam o Monte Kilimanjaro. Por mais que tente não consigo distinguir se é um reino, uma república, um principado ou qualquer outra coisa atípica. Também ninguém sabe o que é, ou o que será. Actualmente é uma ilha cercada de fortificações por todos os lados. Tem petróleo, diamantes, e uma trilogia informativa dona absoluta dos céus que nenhum medicamento ainda conseguiu desintoxicar. Uma rádio, uma televisão, e um jornal para que a aspereza da nobreza permaneça vitalícia.

É-me extremamente difícil andar constantemente sob os aguçados, apontados fios dos canos das armas sempre apontadas e que ao menor estrilo… nos lembram que se usam para nos liquidarem. Dum lado fome, do outro miséria. Por cima estado de sítio, por baixo repressão. Atrás polícia, à frente prisão. É árduo, dizem os tiranos, é o caminho da desolação. (alusão à obra de W.S. Maugham, O Fio da Navalha.)
Sinceramente… que me desentendo! Primeiro os portugueses, depois os russos, cubanos e mais os do Leste europeu com as suas comunas da Idade Média. A seguir alguns negros no conluio outra vez com os colonizadores que me arrastam para o pau, para apanhar outra vez tautau. Amarram-me as mãos mais fortemente que antanho, inundam-me de nu na cintura outra vez. Repetem-se com o chicote e batem-me nas costas, que até parece serpente, e esticam-na de língua afiada. O neocolonizador lança-a com força, como se fosse um dardo, e não se cansa de tanta repetição. As minhas costas já têm o calejar de tanto apanhar. Evito com dificuldade que não me bata nos seios porque receio desfear. Porque depois o meu príncipe não me namorará, bolinará, abandonar-me-á e objectará: «Os teus seios, os colonos te roubaram com eles… então lhes volta…. Não te desejo!»
Depois das primeiras chicotadas perdi o sentimento da dor. Desvio o pensamento para o mais profundo da minha floresta, e lá está o rio da minha meninice. Vejo-me nele a pescar, e depois peixe para secar. E encanto-me com o meu canto: o que parece um pássaro xirico desencanta-me, apoquenta-me.
Estou super cansada, à espera do momento eterno. Sentada, ainda instalada no meu tijolo, a única sobra da demolição do meu casebre. A noite olha-me de soslaio, convicta da minha vã magnificência. Só as noites são magníficas, eternas, nós somos apenas seus passeantes e efémeros convidados.
Porque é que o nosso cérebro se sente feliz quando “ouve” música?!

Falta serenidade no meu mundo de casebres tão amaldiçoado, e constantemente pelos mesmos inimigos ameaçado. A História ensina-nos a mesmice, e por isso mesmo desentendo porque nos deixamos por eles dominar, escravizar. Se são sempre os mesmos, e já o sabemos, porque aceitamos a sua eterna condenação de nos matarem, e de nos inundarem de luar e fome? É porque preferimos viver na eterna violência das revoluções. Gostamos de pegar, lutar com armas para matar, fazer infindáveis revoluções por causa da fome. Acabamos uma revolução… e damo-nos outra vez conta, que os nossos dentes não têm nada para mastigar. Somos os eternos idiotas da nossa História.
G.G.

Só haverá paz em Angola quando desmontarmos a estrutura ortodoxa marxista-leninista do Politburo. Porque o colonialismo e a escravidão ainda não acabaram não. É imperiosa a fundação de outro movimento de libertação.
Ai nosso querido e exemplar Zimbabué! Ainda não lá chegámos?! Já! Tal e qual, muito mais infernal, ao Zimbabué aportaremos, abordaremos. As nossas mentes já são sementes zimbabueanas. Com elas os nossos campos lavraremos, sulcaremos, pejaremos nos cadáveres das partituras sem estruturas dos casebres.
Cumprimos a vontade milenar dos nossos sagrados ancestrais. Miserar, nas trevas concentrar todos os que já não são, que ainda restam de esfarrapados famélicos, moribundos povos enterrados nas cercanias palacianas dos nababos petrolíferos. Governantes travestidos de ouro negro dos excedentes petrolíferos e diamantíferos que investem em campos de concentração, para concentrar a população. Exímio nazismo negro especializado nos comités de especialidade do mais fácil intemporal sacerdotal: Matar! Matar!

Espoliam-nos às claras, claramente, ostensivamente. Com o beneplácito dos amigos, nossos inimigos. Os sempre destruidores, apoiantes, lidadores. Desconseguimos saber que já o zero absoluto atingimos, não somos nada, ninguém O que fazemos?! Não sabemos! Então para que governamos? Para alimentar a ilusão popular que vem aí a Nova Vida. Que tudo vai melhorar mas, outro terrifico Zimbabué está a chegar e vamos nele mergulhar.
Necessita de um campo de concentração? Contacte em qualquer ponto de Jingola uma agência do Politburo, o líder mundial na construção de campos de concentração. Obrigado pela preferência. Garantimos soberba destruição.

Na capital do reino Jingola reiniciaram os trabalhos para a instalação da energia eléctrica experimental. O americano Edison disponibilizou a patente, que roubou a Nikola Tesla, desta extraordinária invenção. Ainda a 130 e com um pico máximo de 170 volts, pelo sim pelo não os sem casebres continuam refugiados nos candeeiros a petróleo e nas velas. A energia eléctrica está, sente-se como o poder. Tão esquizofrénica, tão enfraquecida, tão psicopática, tão patogénica, tão epidémica. Sem energia eléctrica vamos para onde?! Para lado nenhum! Não!.. para o Zimbabué!
Não há dinheiro para construir casas mas, não falta para os estádios de futebol e para mais desperdiçar milhões com treinadores. O fascista, colonialista Salazar mandou construir casas económicas. E ainda estão de pé. O estalinismo do Politburo continua a deportar populações para os campos de concentração de Jingola. São ténues governantes a montante e a jusante do sistema que inventaram e neles concentraram. Governantes da maiuia (meia-tijela) que actuam como se todos o fossemos. De matilhas de nababos e desconjuntados se instalam. E já cantam: «Brevemente tudo será nosso e nada nos escapará. A negralhada aviltada empurra-se para o mar, e nele se vão afogar.» Que os jingolanos não prestam, que são boçais. Mas os brancos de outras cores apenas se aproveitam dessa forçada condição. Serve-lhes de proveito para continuarem a secular pilhagem e escravidão. Estes governantes que nos deportam nada têm a ver com o 11 de Novembro da independência. A espoliação da ilha de Luanda prova uma vez mais que: ser banqueiro é fácil, qualquer idiota o é. Afinal, tão tosco roubar não exige intelecto. E são sempre os mesmos a prometerem, a dizerem as mesmas coisas. Governados por generalistas só vamos para um lado… nunca alcançaremos nenhum. Cada dia que passa tudo se complica. Estão tudo e todos abandalhados, tão desprezados. Isto não está nada bom, não. Pressente-se o temor que de um momento para o outro a terra Jingola tremerá. Isto está insustentável e polícia e exército serão insuficientes e ineficientes. Estamos tolamente, totalmente desgovernados, encalhados num mar tormentoso. Mas, os governantes esforçam-se na aventura do analfabetismo, qual cérebro que não funciona com tanto barulho dia e noite. Cérebros que já não o são, de tão apodrecidos. E assim tudo se acabará… nem sequer se iniciará. Esta fantástica barulheira revela que estamos perante mais um país de brincar, mais um estado-falhado. Depois não repitam à bolchevique que foi Jonas Savimbi que destruiu, que demoliu Jingola. Nós, os do Politburo, estamos na libertação da pátria, construindo o socialismo sem trabalhadores. E estes espaços demolidos são agora do povo, nós os libertamos do capitalismo, são espaços para a criação da nova pátria, como diria outro Hugo Chávez.
Na segunda guerra mundial num campo de concentração nazi, momentos antes do envio para a câmara de gás, um rabi eleva as mãos ao céu e clama, convicto: «Ó Deus mostra-lhes o teu poder!» Mas nada acontece. Desanimado, entoa convincente: «Ah… Deus não existe!»

Nesta Jingola, a cada momento ultrapassado tudo se torna tão complicado. Estamos abandalhados, desprezados pelos urros dos discursos vigiados que apunhalam o nosso sono já quase moribundos. Esses sons azedos, coloniais, escravos das construções dos prédios desviados do petróleo deles e só para eles. Até as noites nos corromperam, nos espoliaram. São os vampiros das noites que sugam os mártires dos nossos deslocados, abandonados em mais um campo de concentração diário, nesta Jingola pintada de negro sem futuro. Sempre com os dedos calejados de tanto carregar nos gatilhos das armas enferrujadas que nos apreendem, nos surpreendem, nos prendem sem culpa formada, que a esmo nos eliminam.
Está tudo tão podre, incompetente, irresponsável e tão selvaticamente, eternamente implantado nos palácios da miséria. Caramba! Corrupção agigantada, não contabilizada, que até da noite fazem nascer selvas. «A falta de transparência manter-se-á com a resistência em organizar legalmente os técnicos de contas nacionais e das empresas nacionais de auditoria poderem fazer auditoria às grandes empresas nacionais. Projecta igualmente o Governo estar impune à falta de cumprimento do regime de prestação de contas estabelecido, de acordo com a Lei do OGE.» In OGE 2005 fpdangola.blogspot.com/

É que esta nau abortou num porto tão lodaçal, que faz muito bem lembrar por analogia, a actual irmandade de Portugal. Que deram-se as mãos ao bananal do subdesenvolvimento e os dois governos pantanosos cheiram a podre de muito longe. E das ruínas dos imponentes prédios coloniais saem contínuos jactos de águas baldeadas, imundas do primeiro ao que resta dos outros andares. O chapinhar é intenso mas tudo e todos permanecem impassíveis, impossíveis no sabor da mais pura selvajaria. É mais esta palavra de ordem silenciosa. Destruir tudo o que resta é preciso. O nosso mestre, ainda no Poder Popular, assim nos doutorou e desunidos nos perderemos. Tamanha miséria moral e material para atacar. Mas não… espalhar estádios de futebóis com o dinheiro que resta do fundo a afundar-se. Apenas para manter a glória efémera dos caudilhos desta praça de armas. «O sociólogo critica, com dureza, a incompetência que campeia pelos corredores das universidades, de professores e estudantes; diz que de cada cem novos licenciados, em média apenas dez têm qualidade aceitável.» In Paulo de Carvalho, sociólogo, em entrevista ao Semanário, O PAÍS

Upanixade – Gil Gonçalves

 

Os clientes aumentam e o Frederico serve novos petiscos. Caracóis, caracoletas e camarão. Instala uma máquina que toca discos com os melhores êxitos do mercado. Para ouvir as músicas são necessárias moedas. A máquina não pára de tocar.
Um rádio técnico amigo convida-me para ir a casa dele ver a última novidade em som Hi-Fi. Coloca um disco com o quinto andamento da nona sinfonia de Beethoven. O efeito sonoro é de espantar. A partir daí a minha alma deixou de ser a mesma. Os coros de Beethoven perseguem-me constantemente como se o céu estivesse infestado de anjos. Mais tarde oiço o Maestro Vitorino afirmar na televisão que Beethoven está para além da própria música. O som invade os nossos lares. Com os Beatles é – pode-se dizer – o despontar de uma nova civilização.

Alguns dos meus amigos tentando seguir a onda da proliferação dos conjuntos musicais que surgem por todo o lado, criam conjuntos amadores à espera de uma oportunidade. Um deles tem manager. Mas apenas um dos componentes se esforça. Toca bateria quase todo o dia a imitar os Beatles. À noite reúnem-se no Frederico para fazer o ponto de situação. Ouvia-os e achava engraçadas as suas pretensões, porque os restantes membros do conjunto passavam o tempo no Frederico a falar de estratégias musicais. Claro que este conjunto e outros não demoraram muito. Creio que é necessário lembrar que John Lennon era um profundo conhecedor do folclore inglês.
As máquinas nos cafés e os equipamentos portáteis musicais iniciam a poluição sonora.

No Café do Frederico acontece uma coisa fora do vulgar. Aparecem os desenhos animados. O coelho, o pato e outras personagens da Warner Brothers, do Walt Disney. Durante poucos minutos de todos os dias o café enchia. Era risada. Uma grande alegria como nunca vi e imaginei. Quando surgiu a série americana de caubóis Bonanza, o café ficava tão cheio que não havia mais lugar para ninguém. Depois o célebre Zip-Zip que originou a que Lisboa parecia uma cidade abandonada aquando da sua emissão porque as ruas ficavam desertas. São nestes momentos que conheço dois personagens que irão influenciar a minha vida.

O Quitério tinha acabado recentemente o curso industrial. Pelas conversas que mantinha via-se que era erudito. Quando tomava a palavra todos o escutavam. Muito simples e humilde depressa despertou a minha atenção. Magro e baixo, com um bigode ligeiramente farto, rosto pequeno e olhos profundos, coxeava ligeiramente devido a um acidente com um tractor em Ataíja, Alcobaça, donde era natural.

O outro, o Mota era muito falador. Apresentava-se sempre impecável de fato e gravata. Alto e muito magro, de olhos largos, sempre barbeado e bem penteado. Sempre a perguntar ao Quitério qualquer dúvida que tivesse. Era muito agressivo e de carácter instável. Mudava de personalidade constantemente. Isso era devido a ser filho único, conforme confessava. Os meus pais exigem muito de mim, lamentava-se. Uma coisa tínhamos em comum: O recenseamento militar e a mobilização para uma das colónias ultramarinas. Era necessário queimar o tempo que faltava.

Nas tardes encontrava o Mota no café com um caderno a escrever. Escrevia muito. Com um chapéu e óculos sempre muito pensativo. Descobri depois que imitava o Fernando Pessoa, até na indumentária. Outros jovens universitários apareciam ocasionalmente, as conversas que mantinham grande parte delas não entendia. Mas com o tempo fui aprendendo muita coisa com eles. O Quitério disse-me que devia ler muitos livros. Como ele ia à Biblioteca Municipal do Alvalade regularmente, disse-me para o acompanhar pois que lá podia trazer três livros gratuitamente e ao fim de quinze dias devolvê-los.

E foi assim que descobri os Grandes Mestres da Literatura Universal. As obras de Jorge Amado li-as quase todas. Mas o autor que mais gostei e creio que li tudo o que publicou foi, William Somerset Maugham. De estilo simples e humilde, muito viajado, com profundos conhecimentos, hábil narrador, honesto, dizia que escrevia para ganhar dinheiro, que conhecia mal a língua inglesa e que o seu êxito se devia aos tradutores. Impressionava-me os desfechos das suas obras. O Fio da Navalha ficou na minha mente para sempre. A Biblioteca Municipal itinerante que funcionava num carro também me permitiu muita leitura, porque aparecia próximo da rua onde habitava.

O Quitério e o Mota com outros intelectuais tiveram a ideia de fundar uma biblioteca que funcionaria na casa de um deles, com jóia inicial e quotas mensais adquiriam livros. Na realidade quem teve a ideia foi o Zé Luís. Era ele o chefe. Destacava-se em tudo. No intelecto e cultura. Um gentleman de educação refinada. Muito educado para quem quer que fosse. Cumprimentava sempre com um leve inclinar de cabeça. Quando surgia todos nos levantávamos para o cumprimentar. Era directo e frontal. Tentei um diálogo com ele, na realidade queria impressioná-lo. Nos jornais lia artigos científicos, cortava-os e guardava-os, especialmente os do Eurico Fonseca. Avancei com Von Braun:
– Você sabe que li um artigo sobre o Von Braun?
Você era o tratamento que ele dirigia a todos. Acho que pretendia manter uma certa distância.
– Ah Sim? Então quem foi ele?
– Sem ele não existiriam foguetões, não seria possível ir à lua.
– Perguntei quem foi ele!
– Um alemão.
– Isso é cultura jornalística.
E como andava sempre com livros debaixo do braço, notei o seu olhar para eles.
– Muitos livros pouca sabedoria. Deixe de ler os artigos científicos nos jornais.
– Mas não tenho dinheiro para comprar livros científicos.
– Por isso mesmo deve ficar calado. Oiça as nossas conversas para aprender alguma coisa.
Envergonhado pedi desculpa e agradeci os conselhos. Entretanto ele perguntou ao Quitério se já tinha, O Fenómeno Humano, de P. Teilhard de Chardin, porque estava muito interessado em conhecer a sua personalidade. Fiquei muito atento à conversa e disse que também gostaria de o ler. Risada geral. Ler esse livro? Se nós não o entendemos quanto mais você. Depois insisti com o Quitério a sós que também gostaria de o ler, e o Quitério tranquilizou-me que só depois deles. Assim foi.

gil gonçalves foto 1Upanixade – Gil Gonçalves

 

Para eles, os aldrabões, centralidades petrolíferas. Para nós, os escravos, chapas de zinco.
Porque será que quando um aldrabão/corrupto, quando acossado logo se defende, sempre com o mesmo plágio: «Isso é calúnia, injúrias, e como ferem o meu bom nome, repúdio tudo em nome da corrupção.»
“Só há uma coisa a lembrar a respeito de África. Hoje, a liberdade é só uma palavra que define um novo opressor. Sim, toda a gente nos utiliza, armando grupos contra grupos, destruindo África. A nossa nova liberdade é um novo nome para a sua nova escravidão. E o último banho de sangue será primeiro entre brancos e negros, e depois entre negros e negros, quando o branco abandonar África. Vivem da ajuda estrangeira, roubando a vossa própria gente. Choram pela opressão exterior enquanto se matam uns aos outros aos montes. Devemos aprender a cuidar uns dos outros, ou nada restará da nossa África, senão um imenso campo de batalha.”
In The Wild Geese, 1978. Filme com título traduzido: Os Gansos Selvagens.
Há prelados aldrabões que utilizam a religião como se fosse peixe podre.
Quer ser um empresário aldrabão de sucesso? Um prelado aldrabão de sucesso em Angola? É muito fácil! Basta apoiar a corrupção.
Judas vendeu-se por alguns dinheiros. Alguns dos nossos prelados vendem-se por alguns barris de petróleo.
Não percam o episódio de hoje da eterna comédia, OS ALDRABÕES. Que acontecerá no episódio de hoje? Será que a cidade de Luanda vai explodir? É imperdível, sobretudo pela actuação dos exímios actores em cena.
Torna-se impossível conceber que três partidos políticos, CASA-CE, UNITA e PRS, que entregaram as suas reclamações de factos irrefutáveis, como por exemplo, a campanha eleitoral nos órgãos estatais e outros privados mas pertencentes ao regime, igrejas da maiuia e seus prelados, na CNE, que considerou as reclamações de má-fé. É como por exemplo, dirigir-me ao meu banco onde tenho uma conta – que não tenho, a miséria do senhor dos escravos assola-me – bancária, detecto-lhe anomalias, movimentos estranhos, e o gerente peremptoriamente sentenciar-me que estou a usar de má-fé e que os movimentos na minha conta estão correctos, quando na verdade estamos na presença de uma fraude bancária dos aldrabões.
Defraudam-se milhões de eleitores e fica tudo normal, sem problemas. Cinco anos a governarem, a aldrabarem na fraude e corrupção sem que haja ninguém que diga não? Não é, não será possível.
«Quando exploras demais um abismo, o abismo também te explorará». Friedrich Nietzsche. 1844-1900.
O Totalitário foi um sonho, agora é o nosso pior pesadelo. Ainda nos restam algumas forças para finalmente nos libertarmos?! Sendo a morte certa, não se compreende o porquê de tanta maldade que alguns seres humanos praticam em vida. Está doutrinado que os milhões de dólares espoliados transformam em deuses, logo em imortais, os seus possuidores. Assim governam-nos eternamente convencidos das suas imortalidades.
Há eleitores que por mais que honestamente votem, o partido das fraudes é sempre o vencedor das eleições.
O reino de Deus parece estar tão podre, tão podre, que o seu cheiro já não se sente, pressente-se.
Creio que Deus está moribundo, e os prelados sem Ele solidificam as igrejas da demonização.
Podem fazer da nova fraude da divisão administrativa de Angola o que quiserem. Não é isso que resolve o mar de miséria vigente. Se até agora nunca resolveram nada a contento das populações. Essa divisão é para melhor rechear as mesadas deles, pois Angola é um condomínio pessoal. E a história moderna de Angola é a história de um feudo, a coroação de um rei.
Pergunta indiscreta: Aparenta estar bem vestido. Fuma que nem um desalmado, fala muito, muito. Bebe muito café e muita cerveja. Anda muito rápido, tipo maratona. Passa o tempo a falar de futebol e comporta-se como um cigano? De quem se trata?
E este quem é?
Bebe sem parar. É mais barulhento que o barulho. Está sempre rodeado de lixo. Tem muitos filhos e muitas mulheres. Fala muito, muito, mas não resolve nada. Agora imita os chineses, trabalha todos os dias, e diz: «Amanhã sem falta resolvo isto.» Ou: «Amanhã telefono, amanhã passo aí. Não, não me vou esquecer! É pá, desculpa, esqueci-me!» À sua volta reina a promiscuidade alimentada pelo exército da corrupção?
A maldição do petróleo canaliza um mar de dólares para os seus proprietários, que de pobres passaram de imediato à cátedra de novos-ricos. E é por isso que temos governantes muito inteligentes.
Um regime leninista caracteriza-se pela repressão sem limites sobre as populações, que passam a propriedade privada e gado humano para estrangeiros.
Há governantes que ficam no poder apenas para nos demonstrarem que são incompetentes, corruptos e fraudulentos. Assim como uma espécie de negação humana. E o tempo vai passando e a revolta se vai acentuando.
Não é apenas nas casas da cidade fantasma que os preços estão elevados, como disse o PR, na generalidade os preços estão desgovernados. Por exemplo, o supermercado Kero, está a praticar preços baixos para rebentar com a concorrência, pois obriga-a a baixar os preços, mas isto tem uma intenção, que é a de ficar com o monopólio do mercado, é o tal dumping. Depois eleva os preços, e claro que depois é só lucros, pois a concorrência não aguentou a pressão de rebentar.
Camarada governador comissário político de Luanda: porque é com discursos políticos gastos, velhos, cansados que se decide o quotidiano irreal de uma cidade que se parece muito com um ferro-velho, destroços, numa lixeira. Partidarizar é destruir.
Esta está o máximo: então, eu trabalho para o Estado sob contracto, e lá está escrito que ganharei mensalmente, por exemplo, o equivalente a quinhentos dólares. Passam três meses, quatro, e finalmente o Estado decide-se a pagar-me, mas com o equivalente a quatrocentos dólares mensais porque houve um erro no contrato.
Oiço amiúde a publicidade sobre a lei dos crimes informáticos, onde governantes e causídicos fazem palestras, onde mais advertem sobre a tipificação da criação de imagens informáticas, onde ainda se reflectem a injúria e a difamação contra os nossos governantes. Na lei sobre os crimes informáticos não se contempla a luta contra a corrupção?
Ao nascermos enfrentamos um mundo, onde viver e sobreviver é o milagre da nossa luta diária.
Isto está entregue aos bichos, e nos bichos ficará?
Impressiona-me a tentativa da invasão de empresas estrangeiras que pretendem vender o que já há muito se vende. Como se Luanda fosse um vasto mercado. A CEAST, no seu último “conselho consultivo” analisou todas as desgraças de Angola, com destaque para a religião da feitiçaria. Mas omitiu a corrupção e a fraude eleitoral.
Enquanto os colonos governarem Luanda/Angola, os momentos diários serão de grande aflição, sem solução para as nossas vistas. E onde há colonos, há despotismo, a imposição da cultura estrangeira, do colonizador, e isso origina revolta, libertação da opressão e espoliação estrangeira.
O cristianismo será absorvido pelo islamismo?
Este petróleo é para uso exclusivo dos palácios reais. E também para uso exclusivo da plebe do trabalho escravo, que até a sobrevivência da venda de bugigangas nas ruas enxurradas de miséria, até isso lhes é negado, porque as forças ao serviço do petróleo usam-lhes tenaz perseguição.
Esta santa terra está odiada de escravatura. E mais um alto dignitário de uma abastada corte estrangeira chegou, para mais um leilão nesta terra de escravos abençoada. E o senhor dos escravos vendeu mais um lote de escravos da sua fazenda Angola. E houve do deus dos egrégios mais festa, e em todas as igrejas que nada têm a ver com religião. Um escravo foi muito bem chicoteado, perante os aplausos dos convidados. E antes o senhor dos escravos ordenara a ligação especial, uma espécie de Natal, da energia eléctrica durante o período festivo.
Este petróleo está imundo, reina, cheira, tresanda a escravatura.
E a festa progredia, merecia, e houve o brindar, o despejar, o beber copos bem atestados de petróleo.
El-Rei, o senhor dos escravos tem super geradores instalados no palácio real, e os que nem direito têm a verem a cor do petróleo, usam velas, porque geradores só quem se rende à bajulação e à corrupção do seu santo poder.

Upanixade – Gil Gonçalves

 

Em Junho de 2009, os familiares de Domingas de Sousa, “Mingota”, procuraram a Televisão Pública de Angola (TPA), depois de lhes ter sido negada assistência médica no Hospital Américo Boavida. Antes, haviam passado por outras unidades hospitalares. Foi uma sucessão infrutífera de idas e vinda até que, em desespero de causa, clamaram por ajuda através da televisão. Quase em seguida, Mingota morreu na portaria da TPA, amparada pela inconsolável mãe.

Texto de Luísa Rogério

Tapou-se o corpo diante das câmaras, mas o assunto não morreu. A morte em directo, da jovem de 25 anos, teve grande repercussão. Nasceu assim o chamado “caso Mingota”. A Procuradoria Geral da República interveio. Uma catalogadora foi identificada como a autora da recusa de atendimento, acto passível de responsabilidade criminal.

Ao hospital também caberia, nos termos da lei, a responsabilidade administrativa e civil pelo sucedido. Em função dos factos, o PGR ordenou a remessa dos autos à Direcção Nacional de Investigação Criminal (DNIC) para a instauração do competente processo. “Mingota” passou a ser um caso de polícia.

A PGR convocou os familiares da malograda para notificação e elucidação quanto aos procedimentos e instrumentos legais com vista a obtenção da indemnização pelos danos sofridos. Encaminhado ao tribunal em finais de 2011, o assunto veio novamente ao público na semana finda.
O hospital Américo Boavida poderá indemnizar a família de Mingota, além de pagar pensão vitalícia à sua mãe pois, aparentemente, esta dependia da filha. São apenas conjecturas suscitadas pelo processo em julgamento, cuja sentença será conhecida no próximo dia 30. Talvez saibamos então porque o hospital universitário atribuiu a uma catalogadora o poder de decidir quem deve ser atendido, o que é estado de saúde grave e urgência.

Na altura em que se volta a falar do “Caso Mingota” soube de outros que, no mínimo, justificam o questionamento da qualidade dos nossos serviços de saúde. Uma jovem mãe deu a luz na maternidade pública. O parto, demasiado longo, não correu bem. O bebé absorveu líquidos que comprometeriam a sua saúde se não fosse prontamente socorrido.

Acontece que a unidade hospitalar tinha equipamento considerado de ponta, mas faltava pessoal para manuseá-lo. Quer dizer, compraram o material e se esqueceram de capacitar o pessoal técnico. A vida do bebé estava em risco. Apreensivos, os familiares optaram por uma clínica privada.
Encontraram uma com equipamento e pessoal clínico preparado para fazer o tratamento recomendado. O bebé tinha que ser internado. Era preciso pagar caução e outras despesas. Em tempo útil a família mobilizou recursos. Pagas as contas, restava transferir o bebé.

A espera prolongou-se por quatro horas. Nesse lapso de tempo os familiares viveram a agonia que palavra nenhuma retrata. Impotentes, assistiram a morte do bebé nos braços do pai. A clínica que reunia condições para atender ao bebé que entrara em sofrimento no ventre materno não cumpriu a sua obrigação por falta de ambulância!

Outra ocorrência chocante dá conta da morte de uma senhora na mesa de operações devido a inexistência de sangue para transfusão. O procedimento tinha sido previamente programado, o que aumenta a indignação.

Há também situações caricatas. A cidadã que viajou de urgência para o estrangeiro devido a uma suposta doença cancerígena de diagnóstico indefinido é ilustrativo. Bem feitas as contas, não estava propriamente doente. Tratava-se de uma gravidez, agravada por quadro denominado hiperêmese gravídica.

Em consequência das náuseas e vómitos por período prolongado, com causa desconhecida, a insuspeita gestante perdeu mais de dez quilos em pouco tempo. Talvez por ter idade para ser avó, como lhe disseram ao pedir explicações, ninguém se lembrou de um simples teste de gravidez ou de requisitar exames apropriados para averiguar as causas do estranho quadro clínico com algum inchaço à mistura. No fim tudo correu de feição para a mãe e para o bebé nascido no país mais a sul do continente.

Ter dinheiro para pagar uma clínica onde se exige não menos do que quinhentos dólares para dar entrada no banco de urgência, já não é quanto baste para se ter acesso a um direito elementar. Procurar assistência médica no exterior tem sido a saída para quem pode. Na Namíbia e África do Sul, os destinos mais próximos, ou em Portugal, Cuba e Brasil também procurados em larga escala, muitos angolanos são tratados em hospitais públicos.

Voltando às urgências, o atendimento deveria ser obrigatório, inclusive no ramo privado. Em primeira instância o objectivo da medicina é aliviar o sofrimento humano. Quando a ética, a pauta deontológica e o Juramento de Hipócrates, feito por médicos e outros profissionais de saúde são postergados em nome de lucros, a alternativa é pedir socorro. Estamos gravemente doentes!

Luísa Rogério

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Gil Gonçalves

Medicina

 

Luanda, manifestação em frente ao Ministério da Educação em solidariedade à greve dos professores na Huíla

Facebook

Central Angola
Decorre neste momento uma manifestação espontânea no Ministério da Educação. Dago Nível Intelecto, Rid Miguel, Emanuel Pitra, Laurinda Gouveia, Bitao Felisberto Holua, entre outros, já estão no local. A polícia já se move para impedir que a manifestação prossiga.
Divac Freire publicou na‎Central Angola
ATENÇÃO!
Os ativistas que presentes na manifestação espontânea no Ministério da Educação, estão a ser levados pela POLÍCIA, para lugar incerto.
Os mesmos, estão no carro patrulha da polícia, na estrada da petrangol.
São eles: Rid Miguel Miguel, Bitao Felisberto Holua Laurinda Manuel Gouveia Lwaty Beirão, Emanuel Pitra, e outros.
ACTUALIZAÇÃO: Os mesmos, encontram-se na esquadra do Farol das Lagostas, Bairro Uíge, Município do Sambizanga
Central Angola partilhou a foto de Emanuel Piitra.
10 jovens, entre eles, Mbanza Hamza, Luaty Beirão, Bitão, Dago Nível Íntelecto, Laurinda Manuel Gouveia, Benedito Umbassanju Aurelio, que se manifestavam frente ao Edifício do Ministério da Educação, em Solidariedade aos Professores da Huila, foram detidos nesta manhã, pouco depois das 1o horas, e foram levados ao Posto Policial do Farol das Lagostas, Bairro Uige, ao Sambizanga.
Há instantes foram interrogados o Benedito Umbassanju Aurelio e o Luaty e acusados de crime de arruaça.

Em actualização permanente…
Central Angola partilhou a foto de Emanuel Piitra.
Estes manos e mais oito, encontram-se no Posto Policial do Farol das Lagostas, Bairro Uige, próximo à Petrangol, ao Sambizanga, acusados de crime de “arruaça”, quando na verdade, se manifestavam em solidariedade aos professores da Huila, que há meses estão em greve, reivindicando direitos que lhe são negados pelo governo da Província, mandatado pelo Kitumba.
Os manos foram detidos frente ao edifício do Ministério da Educação, é isso mesmo, ou não é da Educação? Lá onde trabalha, se trabalha, o auxiliar do Kitumba, Mpinda Simão..
Central Angola partilhou a foto de Emanuel Piitra.
Mbanza Hamza, com o cartaz onde se lê, “GOVERNADOR QUE NÃO RESPEITA PROFESSOR, É (DES)GOVERNADOR”, acaba de ser isolado, numa sala a parte.
Alguma ordem da sua divindade “Ordem Superior”?

blog_Gil_Goncalves_UpanixadeGil Gonçalves
Upanixade

 

A energia universal move o universo.
Mas o amor de uma mulher,
é a energia mais poderosa que existe.

E quem água não consegue abastecer
De certeza que nada mais sabe fazer
Do petróleo nada resta para aprender
E quem ousar duvidar é para prender
Água? Isso nunca nos dará poder
Pagamos água importada para beber
O nosso povo? Queremos lá saber!
Dessa miséria nacional que não sabe ler
Que morram pela sede, vão-se foder!
Extermínio que não se pode esconder

Se tens a tua casa bem apetrechada
A qualquer momento será atacada
A integridade da tua família violada
Nesta Luanda do inferno dominada

Como o MPLA, fala muito a oposição
Muitas palavras muita diversão
Angola está condenada à inacção
Só de vez em quando tem agitação
E histeria política como formalização
Perdidos no futebol da religião

A prestação de contas vai melhorar
A miséria da nossa nova vida piorar
No lugar onde nada há para germinar
Dizem que as terras se vão agricultar

A nova vida está em todos os domínios
Até dos cemitérios fazem condóminos
Sob imposição temporal dos declínios
É com toda a certeza mais extermínios

Não sou o bom disto nem quero ser
Limito-me apenas o meu melhor dar
Nada mais há aqui para acontecer
Quanto pior melhor para defraudar

Lembrar, são trezentos mil portugueses
Ou mais de chineses que nos dominam
Tratados, reverenciados de semideuses
Porque a miséria mwangolé disseminam

Que triste de irresponsáveis depender
É o caminho para o morticínio certo
Não temos ninguém para nos defender
Destes palácios de destino tão incerto

Cada povo tem a inquisição que merece
Em Angola há galopante inquisição
Um governo que há muito desfalece
Que jaz nas igrejas da religião da inflação

Gil Gonçalves
Upanixade

 

A
José Quitério

Estou na janela do quarto, apesar de ser dia, cerca de quinze horas, a rua está muito escura, o céu escureceu-a Aproxima-se forte tempestade. A chuva cai com força, a rua fica alagada. Os fortes pingos parecem bombas de prata, batem no solo e se desfazem na procura da terra para a fecundarem.
A trovoada está próxima, pois já são nítidas as faíscas seguidas dos trovões.
Meia hora depois a chuva faz uma pausa, parece que já dá para sair, mas não, o vento sopra a anunciar que mais chuva vai chegar. Não sei se hoje conseguirei viajar para o café do Frederico. Não sei se estarei na companhia dos meus amigos a ver a série Bonanza.
A escuridão permanece, nos prédios acendem-se as lâmpadas que assim continuarão porque dentro em pouco o oficial da noite substituirá o oficial de dia.
A chuva não desiste da sua missão de fustigar, alagar a terra. As árvores agitam-se contentes pelo banho, o verde intensifica-se grato pela manifestação do festival da natureza.
Vejo crianças que saem dos carros a correrem para brincarem na água, mas mesmo impedidas pelos seus pais resistem-lhes, empregando todas as artimanhas da artilharia infantil. Mas uma ou outra consegue iludir a vigilância materna e salta, rebola-se na água imaginando que é um pato. Quando em crianças sentimos uma atracção irresistível pela água que nos faz imaginar que viemos do mar.
Parece-me que neste sábado o café do Frederico será um lugar óptimo para respirar, pois que devido à chuva pouca gente o irá frequentar. Diferente dos outros sábados da Bonanza em que se pode dizer que todos os fumadores dos Olivais-Sul ali vão encher as chaminés de nicotina como numa fábrica.

E ao caminhares na eternidade lembra-te sempre de mim. Tu estás lá no outro lado, eu estou neste, apesar da tua presença imaterial consigo sentir-te como se a morte fosse apenas a dimensão oposta da vida.
Junto ao candeeiro de luz na rua vejo algumas plantas que assomam rejuvenescidas pelo elixir da água, como o cadinho dos alquimistas.
A família está de regresso, as vozes são inconfundíveis. Já não consigo pensar. As crianças batem na porta, chamam por mim. Abro, elas entram e abraçam-me contentes.

Hoje a chuva disse que não, e aceito a sua decisão.
Vou para a cozinha e depois para a sala de jantar, e chamo: «Mãe! Mãe! Mãeeee!» Oh! Lembro-me que já lá não estás, partiste na máquina do tempo para um lugar distante onde finalmente descansarás e viverás em paz. Jamais te esquecerei!

gil gonçalves foto 1

Gil Gonçalves
Upanixade

 

A nossa involução é marcante, de ruir
Temos um comando unificado de rir
Reúne estratégias para casas partir
40 anos de regime para nos demolir

Os nazis estão em Luanda e ninguém vê
Não os perseguem, não os caçam porquê
No país de tantos doutores ninguém lê
Só a riqueza do petróleo o poder prevê

Os acordos no Brasil foram um sucesso
Mais casas arrasadas mais um insucesso
Como a ditadura do nosso retrocesso
E chamam-lhe as forças do progresso

Os portugueses de regresso outra vez
Abandonam Portugal com muita rapidez
Prestam vassalagem ao Poder da sordidez
Sem escrúpulos vendem a sua honradez

Esta Pátria está em risco de extinção
Temos que lutar por ela de antemão
Antes que a quadrilha a leve à perdição
Decididos lutemos com força e união

É o futebol do parte casas este país
Dele só restam farrapos humanos
Crianças sem pátria e sem chafariz
Lordes, chineses, e tugas inumanos

O banco na tuga estava falido
Logo chegado viu-se enriquecido
Só o chinês é que sabe ferros serrar
E por isso continuamos a importar

Necessitamos de uma forte liderança
Que nos conduza para a mudança
Acabaram-se os tempos da bonança
Todos pensam, desejam a vingança

E onde haja qualquer manifestação
Lá estão 40 anos da lei do canhão
Do petróleo do partido do coração
Avoluma-se já marcha a multidão

Pela segurança do Estado pode-se matar
Porque não há ninguém para os julgar
Acabaram-se as colheitas vê-se o desabar
Os fundos do erário público a desbaratar

Outra vez 1975 sob o comando unificado
Para outra guerra civil facto consumado
Regime leninista é Povo desgovernado
E povo na miséria pelas armas passado

O nosso futuro está mais que desgraçado
Vamos fugir todos para Mellia a nado
Povo das barras de ferro desesperado
De Constituição, leis, tudo desrespeitado
Gil Gonçalves
Upanixade
gil gonçalves foto 1

 

 

 

Reino Jingola, algures no Golfo da Guiné

Ainda existem reinos que por vontade própria regressam, vivem, revivem, convivem na Idade Média. Este é um desses reinos.

Capítulo XI
A Reunião dos R-7

«A armadilha que prende os pobres é impressionante. Os pobres são muitos, e votam. E como são muitos, o que se fizer pelos pobres rende votos. Logo, qualquer medida que favoreça os pobres constitui demagogia, autêntica compra de votos. Ah, se os pobres não pudessem votar, seria ideal, pois poderíamos fazer políticas para os pobres sem que isso deformasse a vontade popular e pesasse nas eleições. Mas votam, e como há eleições a cada dois anos, pode-se fazer política para os pobres uma vez a cada dois anos. Considerando que a desigualdade é de longe o principal problema do país, tentar travar políticas que a reduzam não é oposição, é sabotagem.»
In Oposição a quê? Ladislau Dowbor http://www.dowbor.org/

A atenção de Epok desviou-se pelo som de dois Bips provenientes do ER. E-mail Real. Olhou para o monitor e tentou lembrar-se das teclas de acesso. Esses das escolas ensinam mal, mas com um pouco de esforço conseguirei. Tecla para ali, tecla para aqui e já está. O primeiro e-mail vinha da Rádio Real. Falava de um pai que num mercado ali para os lados do condado de Viana, perguntou ao filho de sete meses porque é que ainda não andava. Muito chateado deu-lhe pontapés. Elevou-o e esmagou-o de encontro à parede. Justificou-se nas calmas. «O filho é meu, faço-lhe o que quero.»
E continuou calmamente a passear pelo mercado.
O outro e-mail dizia que o rei estava no reino Burundi. No Burundi?!! Ah!.. Não está de férias no Brasil?!! Esta é boa! Foi lá passar férias?!! Não entendo…
O texto completo dizia:
Do templo perdido na selva do reino dos Genocídios aconteceu a reunião dos R-7, os sete reinos mais teimosos do mundo. Jingola, Zimbabué, Níger, Burundi, Sudão, Somália, e Reino do Ruanda. Permitiram ao rei Jingola fazer o discurso de abertura. Isso seria apenas o único trabalho da reunião porque confessaram estarem – sempre – muito apressados. Preocupados por se ausentarem dos seus reinos. O rei Jingola sofre um ataque de pânico:
– Temos que acabar com isto rápido… tenho muitos casebres para partir.
– Não sei se a rainha já conseguiu arranjar alguma coisa para o almoço, ninguém tem nada para comer. – Lamentou o rei do Níger.
– Deixei um massacre a meio no Darfur. – Garantiu o rei do Sudão.
– Estão à minha espera para bombardear o aeroporto. – Desabafou o bélico rei da Somália.
– O meu avião está quase sem combustível. Vou espoliar um bocado nos depósitos do avião do meu colega Jingola. Combustível não lhe falta. Esmolou o rei do Zimbabué.
– Tenho que acompanhar a invasão do Ruanda. – Disse em tom marcial o rei do Burundi, preparando-se para se levantar.
– Vou dar-te um monte de socos na merda da tua cara infeliz rei do Burundi – Ameaçou o aguerrido rei do reino do Ruanda.
O rei Jingola pediu-lhes calma. Levantou-se e devido às pressas dos presentes improvisou um discurso:
– Camaradas reis! Temos que acabar com as nossas preocupações pessoais. Temos que escolher um desporto mais saudável. Deixarmos… acabemos com essa dos gladiadores no circo africano. Acabar com o desporto de nos matarmos uns aos outros. Não conseguimos entender o porquê da fome que aumenta. As nossas populações fogem dos campos. Ninguém quer trabalhar. Fogem para as capitais, vendem qualquer coisa, sentem-se felizes. Será que é assim tão difícil acabar com a fome? Temos que efectuar mudanças urgentes…
O discurso é interrompido pelo rei do Ruanda.
– Peço desculpa… acabo de ser informado que o Burundi está a invadir o meu reino.
Os reis abandonam o local em correria, receosos de ao chegarem aos seus reinos, estes já tenham os tronos ocupados por outros usurpadores.
Epok assusta-se com o barulho na porta.
– Abre esta merda!
Reconheceu a voz. Lembrou-se que a porta estava fechada por dentro, abriu-a.
– Ó pinturas horríveis e mal-educadas!
– Fechaste a merda da porta porquê?!
– Para não te aturar… diz-me como ficou o trabalho nas cozinhas.
Como resposta ela pegou numa lima e começou a limar as unhas. Apontou com a cabeça para o cozinheiro, este diz:
– Chefe, os géneros acabaram. Estava quase tudo estragado. Vinte quilos de…
– Couve, tomate, etc… já sei. Só sabem é roubar… aprenderam com quem?! A Pinturas esteve lá a fazer o quê?
– Ai é!? Não sabes ler? Isso não faz parte do meu perfil ocupacional.
– Pára de limar as unhas! O rei saberá que são muito mal-educadas?
– Se não gostas tens que te habituar! Melhor que nós não há!
– Há sim! As piranhas. Só que com as tuas pinturas vais poluir a água e as piranhas não sobreviverão. Entretanto o teu belo corpo de real súbdita será um belo petisco. Faremos boas latas de conserva para exportação. Negras com piranhas enlatadas. Ah! Ah! Ah!
– Grande sacana, desgraçado. Vou preparar um relatório para o rei.
Epok marimbou-se e encara o cozinheiro que treme de medo.
– A partir de agora quero ver os géneros estragados!

Capítulo XII
La Padep e a princesa

O cavaleiro La Padep, depois das injustas marteladas que levou nos ossos conseguiu solidificá-los. Foi a sua amada princesa que conseguiu surripiar dos seus pais o dinheiro necessário para pagar a um físico amigo, e a outro muito conhecido pela fama dos seus unguentos. Tinha-lhe recomendado para evitar a todo o custo as pretensões de qualquer feiticeiro, que não curavam nada, pelo contrário, faziam imensos estragos. Graças aos cuidados da sua querida, que não poupou esforços, sentia-se como um peixe raro, desses dos aquários reais que não lhes falta nada. Incluindo água e temperatura sempre agradáveis, livres de poluição. Como os cães reais, que têm uma clínica privada para o tratamento de uma simples verruga, ou da comida excessiva. Enquanto os súbditos aguardam com impaciência fora dos portões triplamente reforçados com os melhores aços importados, os restos das latas importadas.
La Padep, imprudente, assomou à janela. Viu a imagem habitual do reino. A negra, para sempre a negra, carrega para sempre uma criança às costas. Apanha qualquer lixo do chão e dá na criança que come e ri. Quer dizer, negros e negras para sempre confundem-se com o lixo. Fazem parte dele.
La Padep considerou: os juristas, economistas, advogados e empresários nacionais, que já não existem, políticos que se engasgam ao pronunciar uma palavra, contratam empresários estrangeiros degredados. Bem protegidos vendem-nos toda a merda. Com defeitos de fabrico, estragados, os restos das fábricas alimentares, de bebidas, tudo o que é importado. Toda a merda do seu lixo industrial aqui chega. Os lucros abissais dos dólares do inferno são carregados em malas pretensamente diplomáticas. Parece que ninguém se lembra que esta lavagem de dinheiro alimenta directa ou indirectamente os circuitos do terrorismo internacional. Impunemente já não pagam salários. Ninguém tem direito a receber pelo trabalho digno. Só os que roubam têm direito a salários pagos no estrangeiro. Se alguém reclama, não faz sentido, porque os canos das pistolas aparecem em qualquer momento encostados nas cabeças. Manifestações são proibidas. Ainda bem! Porque fazem aumentar a raiva, o ódio do juízo final, à espera da guilhotina no final da Monarquia Francesa, tal e qual igual como aqui.
São bobos da corte, bobos do rei. Que faremos de alguém que nunca leu um livro?
Toda a família tem uma ovelha ranhosa. Sempre foi assim, certo?
Não! São duas. Um homem ou uma mulher que arruínam a nossa vida. Depois aparece outra para saborear o que resta das ruínas. Sempre assim. Depois mais outra, até que ousamos dizer, se o conseguirmos, basta!
Os fundamentos da vida estão em procurar. Saber procurar e aprender. Essa é a verdadeira essência. Depois de cansados, pontapeados, desprezados, encontramos finalmente o derradeiro Caminho. Essa verdade última, que poucos conseguem descortinar. Finalmente viver em paz com Deus, com o Universo. Mas isso ainda é um pouco da suprema Verdade. Quando estamos prestes dela, o Criador ordena que seja para sempre parado o motor da vida, que é o nosso coração cansado das nossas angústias devido aos pecados cometidos. Porque na nossa vil e vã existência fomos ensinados a odiar.
Subverter a opressão de meia dúzia ao serviço de interesses estrangeiros que nos escravizam, é fazer a revolução. A população aguarda ansiosa.
La Padep desfez o embrulho que a princesa lhe enviara. Era a indumentária vermelha e negra dos mosqueteiros do secreto Santo Oficio. A temida polícia secreta do rei. Vestiu-se e lembrou-se que faltava a espada especial dos paladinos do rei. Isso não seria difícil porque no mercado primevo Roque Santeiro existe tudo. É apenas uma questão de dinheiro. Pediu a uma jovem, das muitas que esperançavam serem suas namoradas. Tantas pretendentes que se lhes perde a conta. Ela aconselhou:
– Olha, vê só La Padep, este dinheiro não vai chegar!
– Fofinha, faz só confusão com o vendedor, quem sabe…
– Não sou dessas. Se faltar algum dinheiro vai exigir que namore com ele, sabes como são esses gajos, não é?!
– Deixa-te disso. Pronto, compra uma espada usada, sei lá.
– Estou no negócio de espadas há muito tempo. Olha, vou comprar uma dessas feitas na Nigéria. Se tiveres o azar de a usar, desfaz-se.

Gil Gonçalves
Upanixade
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Reino Jingola, algures no Golfo da Guiné.

«A própria insuficiência de governo torna mais difícil a construção da capacidade de governo. É da insuficiente capacidade democrática de governo que surgem as nossas impressionantes polarizações entre ricos e pobres. A partir de um certo grau de concentração de renda, esta já não representa apenas um problema de justiça social, e sim um fator de desequilíbrio de poder político, tanto para os pobres como para os ricos.»
In A Reprodução Social Ladislau Dowbor http://www.dowbor.org/

– É verdade chefe.
– Acompanhei a chegada dos géneros e não vi nada de anormal.
– Chefe… o problema é a produção nacional… tudo aldrabado… tudo pirateado.
– Quero um relatório, ou uma comissão de averiguação!
– Chefe trago-o comigo… vinte quilos de tomate, de batata, arroz, açúcar, leite, couves e outras coisas.
– Vinte quilos de tudo estragado. Só vocês é que não se estragam. Bantus, cafres. Nenhum macaco se estragou?
– Infelizmente não servimos isso, é mais para Norte. Apesar que adoro… posso retirar-me?
– Sim!.. Para acabar com esta merda o melhor é contratar guardas mercenários e pessoal estrangeiro para as cozinhas, pagando-lhes dez mil dolos por mês. Vocês não servem para nada. Prometo-vos que hei-de descobrir os roubos que estão a fazer! Retira-te!
Depois do cozinheiro sair, Epok aguardou alguns momentos. Virou a sua atenção para a porta. Quase berrou:
– Ó Pinturas!
– Sim! Cavaleiro sem figura!
– Olha, não me fales mais assim. Senão vais para o olho da rua.
– Tenta só, vá. O rei gosta muito de mim, não sabes?
– Não quero ser incomodado por ninguém. Tenho que estudar os dossiers que o rei me deixou… vai-te.
Antes de fechar a porta por completo, ela deixou escapar de modo que Epok ouvisse.
– Desgraçado, mal-educado, racista!
– Porra… não sei como é que o rei consegue aturá-las. Desejo que ele não se demore.
Haviam vários dossiers com capas de várias cores. Epok pegou no único de cor vermelha. Abriu-o e viu uma folha de papel que o sobressaltou.
ESTÁ PROIBIDO DE TOMAR QUALQUER DECISÃO SOBRE O LÍQUIDO NEGRO. VÁ PARA O ASSUNTO A SEGUR. Pensou: vou ocupar essa que está aí na porta. Quero estar à vontade. Sei muito bem que são hábeis espias, mais perigosas que as do Kadafi. Chamou-a:
– Ó pinturas!
– Sim, diga grande chefe da cor de permeio!
– Cale a boca sua burra. Vá nas cozinhas e elabore um relatório completo do que se passou nas últimas vinte e quatro horas.
– Incluindo com quem elas dormiram durante a noite?
– Sim, e com quem tu dormiste durante a noite.
– Oiça Epok, ou lá como se chama. Tira o cavalo da chuva que daqui não levas nada. Isto é propriedade real, percebes?

Epok certificou-se se a espia saíra do local. Abriu a porta, ficou satisfeito. Ninguém à vista. Fechou-a e trancou-a por dentro. Insistiu no conforto do seu assento. Respirou fundo. Olhou para o próximo documento muito atentamente. O que lia não era para menos. Será que o rei se tinha distraído? Ou seria uma armadilha? Para depois ter um pretexto e enviá-lo como embaixador cientifico algures numa estação dos gelos da Antártida? Os documentos estão aqui comigo, devo seguir em frente.
O documento falava para ser efectuado um inventário aos diamantes que se encontravam nos cofres particulares do Banco Real de Investimentos. De quem seriam estes diamantes? Outro decreto real que cria uma nova empresa a Única Cargas Real. Terá uma frota de camiões novos. Actuará nos portos e aeroportos. Cinquenta por cento das vendas mensais serão entregues aos Cofres Reais do Grande Saco Azul.
Havia uma observação. § Único. As empresas privadas obrigam-se a reter vinte por cento das vendas mensais para o Saco Azul. Serão consideradas como custos do exercício.
Mais um decreto. Cada vice-reino terá um orçamento anual de vinte milhões de dólares. Na realidade receberão apenas cinco. A diferença será justificada com o argumento de que os recursos colocados à sua disposição foram desviados.
O que é que temos aqui? Epok esfregou as mãos de contente. Pontes, escolas, viadutos, estradas. Prefiro as escolas, são rápidas de construir. Acciono os contratos para dez escolas e ganho de uma assentada cinco milhões de dolo. Vou receber cinquenta por cento adiantado, mando pôr na minha conta no estrangeiro. Depois sou exonerado, vou-me embora para tratamento de uma doença no estrangeiro, e estou safo.
Comunicados de manifestações? Enviados para aqui pelo vice-rei Jingola? Ele não quer assumir o papel de mau. Hum! Com receio de tomar decisões. Ou melhor, tudo para aqui, seja o que for. Isso da centralização dá cabo da cabeça de uma pessoa. As coisas não deviam funcionar assim. Vejamos o que dizem estes comunicados:
ADERE, Associação dos Dementes do Reino Jingola.
Exigem que os malucos andem à vontade nas ruas. Que não sejam internados. Porque os verdadeiros malucos já andam há muito tempo nas ruas. Já não sei quem é maluco. Quer dizer nós somos malucos, e eles, os verdadeiros são os sãos.
ASURE, Associação dos Suicidas Reais do Reino Jingola.
Queremos um prédio decente, moderno, com pelo menos vinte andares. Para nos atirarmos e apreciarmos a paisagem na queda. Aquele donde nos atiramos não tem as mínimas condições. Tem lixo por todo o lado. Podemos apanhar uma doença.
Como vão construir um hotel bem alto, terão direito a uma boa refeição durante o voo. Força aí suicidas. Matem-se à vontade.
ASARE, Associação dos Alcoólicos Reais do reino Jingola.
Queremos beber dia e noite sem qualquer restrição. Queremos uma percentagem dos vinhos dos Tonéis Reais, ou acesso a bebida a crédito. Isso é pedir muito? Viva a união dos alcoólicos de todo o mundo. É melhor propor ao rei a mudança de nome do reino. Reino dos Alcoólicos de Jingola.
APRE, Associação das Prostitutas Reais do Reino de Jingola.
Queremos melhores condições de trabalho. Aqueles a quem prestamos serviços, há meses que não nos pagam. Vamos fechar as nossas pernas e acabou-se. Protestamos contra a concorrência das estrangeiras. Estamos a ser discriminadas. Elas baixam muito os preços. Se não aceitam as nossas reivindicações, vamos oferecer a coisa de borla durante um mês. Cuidem-se minhas senhoras nobres. Vão ficar sem maridos.
Estas putas perderam o juízo. Vou perder o negócio das minhas casas clandestinas. Antes que seja tarde vou importar algumas asiáticas.
AFRE, Associação dos Feiticeiros Reais de Jingola.
Antes dos Portugueses chegarem, nós já cá estávamos. O nosso povo pratica a feitiçaria como um acto normal de soberania. Faz parte das nossas tradições. Em troca de qualquer coisa, praticamos e inventamos novos ritos. Exigimos o tratamento por médicos tradicionais. Senão lançaremos um grande feitiço sobre o reino.
Isto preocupa-me. Este reino está cheio de feiticeiros e feiticeiras. São mais poderosos que os republicanos.
ASARE, Associação dos Analfabetos Reais de Jingola.
Não queremos livros, não queremos ensino. Não queremos universidades, estamos fartos de estudar. A nossa cabeça não aguenta. Não aos livros! Ainda bem. Estes ao menos são honestos. Grande poupança nos sacos azuis.
AERE, Associação dos Esfomeados Reais de Jingola.
Exigimos apenas vinte navios com comida, que será vendida e paga daqui a dez anos. Senão vamos saquear tudo o que se mexer.
Vão mas é trabalhar. Querem tudo de borla. Ir para os campos? Não aceitam. Só querem ficar na capital do reino, reais sacanas.
UNTRE, União Nacional dos Trabalhadores Reais de Jingola.
Queremos acabar com o assédio sexual nos locais de trabalho.
Isto é uma manobra de diversão. Se tivessem bons salários, acabava-se o assédio sexual. Deviam exigir mais dinheiro, mais condições sociais.
O Partido dos Republicanos da União Total, exige eleições livres e justas, já! Os republicanos estão sempre a falar de eleições no reino. Estão loucos?! Nunca! Jamais! Ninguém conseguirá alterar o sistema de planificação centralizada do reino e vice-reinos.
Um documento carimbado com as palavras, MUITO SECRETO, chamou-lhe a atenção. Era do marquês do Santo Oficio.
Meu rei, levo ao seu superior conhecimento:
Muita atenção aos republicanos da família dos Areópagos da árvore Andrade (Persea venosa). Não é a primeira vez, nem será a última que tentam tomar o poder. São muito inteligentes e devem estar permanentemente vigiados pelo nosso Santo Oficio. Um deles candidatou-se a presidente da futura República. Outro faz muitos comentários. Falam muito e à vontade na rádio dos republicanos, que assim não dá. Apelam com camuflagem à revolta. Acho que é hora para a nossa secreta dar-lhes uns bons açoites. Acabar com eles e como sempre deixar no esquecimento. Republicanos chatos. O culpado é quem inventou isso das repúblicas e das democracias. Porque não nos deixam em paz?! Estamos há mais de trinta anos no poder. E sentamo-nos e sentimo-nos bem. Porque não esperam mais trinta anos para lhes darmos as condições adequadas? Invejosos!

Gil Gonçalves
Upanixade
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Reino Jingola, algures no Golfo da Guiné

CAPÍTULO X
A FUNCIONÁRIA REAL

Epok está sentado na cadeira do gabinete real. Uma funcionária do protocolo, muito bela, muito alta, muito magra, muito escura, com cabeleira postiça muito pintada com uma cor que ela inventou, óculos muito escuros, com as faces muito pintadas, os olhos, os lábios e as unhas dos pés também tudo sobrecarregado, muito pintado, aproxima-se e proclama independente.
– Senhor cavaleiro regente Epok, o chefe das Cozinhas Reais apresenta-se. Devo embaraça-lo ou entrá-lo?
– Desculpe-me real senhorita, move-me uma pergunta!
Ela sentiu algo de inesperado. Talvez fosse pela farta cabeleira que na ausência do rei aproveitou para caprichar. O rei era muito crítico nesse aspecto. Gostava de ver as suas funcionárias com o que tinham, com o que nasceram, e nada de imitar costumes importados de outros reinos, especialmente o Ocidental. Pôs as mãos por baixo dos seus cabelos, levantou-os e afirmou:
– Pois não, podeis mover-me com real à vontade.
– Presumo que acabais de sair da real exposição de pintura?!
– Ai é!? Seu presumido, acaso não gostais das minhas nobres pinturas?
– O reino já está muito escuro, demasiado encoberto, para quê escurecê-lo mais? Aclare-se devidamente, especialmente nas suas ideias. Na verdade evite confundir-se com as noites sem luar. Faça das noites dias claros, seja mais clara no seu comportamento.
– Estúpido imitador racista! Enquanto o rei estiver fora, vou-te fazer a vida muito negra. Ah!.. Filho da puta racista… vais ver… vou-te queixar no rei!
– Pronto! Não se pode falar nada, levam tudo para o racismo. Assim não vamos a lado nenhum. Não sou obrigado a gostar de tudo o que é escuro. Não sou o rei. Ele que vos ature, porra! Suas feiticeiras de merda! Diga no chefe cozinheiro real para aguardar. Ponha-se lá fora, que depois gritarei por si.
Apesar do ambiente climatizado Epok sentiu suores frios. Passou a mão na testa. Forçou o seu corpo para o fundo da cadeira, uma consola em madeira dourada Luís XIV. Depois considerou: porra! Esta merda do racismo, parece que não, mas existe com muita força, escondido, disfarçado, como as noites muito escuras, em que não se consegue ver quem é quem.
Participou num debate sobre racismo na NetReal, acessível a poucos, devido a razões compreensivas… preços Reais, filiais e irreais, péssimos, sem concorrência. A sua intervenção limitou-se apenas a dizer que: Os brancos não gostam dos mulatos nem dos negros. Os mulatos não gostam dos negros nem dos brancos. Os negros não gostam dos brancos nem dos mulatos. Não entendia o porquê de tanta hipocrisia. No computador Real procurou um artigo que lhe enviaram pelo e-mail Real. Achava muito interessante o modo como o autor abordava o racismo. Ainda mais era um súbdito do reino, que preferira o exílio no poderoso reino dos Grandes Estados Unidos. O texto apareceu no monitor Real, especialmente fabricado para o rei. Dizia:
«ABREU KUSSUYA abreukussuya@yahoo.com
1. Muitos dos argumentos que estão a ser feitos aqui não são inéditos no continente Africano e em vários outros lugares aonde existe uma disputa do poder entre raças, grupos étnicos etc. No continente Africano, em países Anglófonos, por exemplo, o processo da “Africanização” do sistema governamental e das altas escalas das empresas públicas não foi encarada positivamente por grupos que, tradicionalmente, pertenciam ao topo – os brancos e Indianos. E o descontentamento deste grupo que se sentia, de repente, destronado, manifestava-se através de argumentos que aparecem hoje neste site quando se debate o predomínio dos brancos e mulatos nas instituições Angolanas. O acrescentamento de quadros indígenas, argumentava-se, resultaria na mediocridade. Enumerava-se então os grandes defeitos do negro – a sua suposta preguiça perene; a sua incapacidade de planificar, organizar e implementar; a sua falta de pontualidade; a sua incapacidade de seguir regras e normas; a sua inabilidade de superar vícios carnais, como querer dormir com as secretarias ou dar emprego às suas amantes; o seu espírito permanente vingativo e invejoso; a sua inabilidade de captar relações abstractas de vários fenómenos relacionados ao seu trabalho; a inabilidade de pensar estrategicamente etc. A lista dos defeitos do negro é quase interminável.
2. Estes argumentos serem mesmo considerados como fazendo parte do arsenal do PRECONCEITO INTERNACIONAL. Nos Estados Unidos, o mesmo foi dito sobre os Afro-Americanos. Na Inglaterra, o mesmo foi regularmente dito sobre os Irlandeses, que só tomaram a sua independência em 1920. Os Europeus do Norte diziam as mesmas baboseiras à volta dos Italianos, Espanhóis e – claro – Portugueses. Os Japoneses, diziam a mesma coisa sobre os Chineses e Coreanos quando reinaram sobre esses povos. Os Russos – esqueçamos da propaganda comunista – diziam as mesmas coisas sobre indivíduos vindos dos estados Asiáticos da União Soviética, como o Kazaquistão. Os Indianos, para justificar o sistema de casta, aonde os Dalits (os ditos intocáveis) permanecem sempre em baixo, como os Nganguelas e Chokues em Angola, também invocam os mesmos argumentos sobre as deficiências desta classe supostamente baixa e que não é dada a mobilidade social.
3. O que é triste, neste nosso debate de Angolanos, é que os nossos irmãos mulatos ainda restam na fase da Catinga. Os pretos, para eles, cheiram a catinga, são corruptos e incompetentes; ergo, não podem assumir ou mesmo reclamar lugares de chefia no seu próprio país. Há várias razões que explicam esta arrogância tão barata do mulato Angolano. Em primeiro lugar, o preto Angolano dá muito valor ao mulato e à sua pele. Em outros países Africanos, o mulato é filho do branco, concebido em muitos casos em circunstâncias enojantes, e acabou. Nestas sociedades, só ascende o mulato que pode provar ser competente etc. Em Angola, isto já não é o caso – não há, no mundo, um indivíduo tão enfatuado consigo próprio, com uma noção do seu próprio valor tão irreflectida como o mulato de Angola! Para constatar isso, basta só uma visita a uma das capelas dos nossos compatriotas claros – como a discoteca Palos na Petrofaminta. Isto tudo advêm de uma certa veneração que o negro Angolano tem para com o mulato. Não é invulgar, em Angola, encontrar um negro licenciado, culto, sofisticadíssimo, capaz de falar varias línguas etc., que, depois de uma tarrachinha, começa logo a gaguejar perante uma mulata semianalfabeta.»
«4. Um outro factor que explica a arrogância desmedida do mulato Angolano é o tão louvado lado Português. Até recentemente, o índice da evolução humana em Portugal, relativamente ao resto do mundo, era notavelmente baixo. Os Portugueses que foram forçados para emigrarem para as colónias – criminosos, atrasados mentais, filhos ilegítimos etc. – era a escumalha, sem dúvida, de Portugal. Será que, há por exemplo, uma única família de mulatos Angolanos que pode dizer ser oriunda da aristocracia Portuguesa? Quais são os mulatos Angolanos descendentes dos Braganças ou dos Bourbons?
5. Os únicos mulatos em Angola com antepassados que tem uma certa história com algum peso são os Cohens de Benguela que foram criados por um judeu peripatético que eventualmente veio a ser Cônsul Britânico em Angola. Depois, também, há os Daskalos, primos dos Laras, também de Benguela, moldados, com muito carinho e fervor, por um aventureiro Grego. Francamente, se há mulatos em Angola com verdadeiro sangue azul eu não os conheço. Como é, então, que gente com raízes sem valor pode ser comparada aos Aristocratas do Bailundo, descendentes da família real Bakongo que partilham o mesmo sangue com o rei Mandume e outros Angolanos valentes. (Não cito aqui a rainha Ginga porque ela é que começou com a prática tão vergonhosa de negras quererem casar com brancos. Nos últimos anos da sua vida, a grande rainha acabou por ser uma concubina de um Português comum em Lisboa).
6. Esses nossos mulatos, que agora andam por aí cheios de tantos ares e tão orgulhosos dos seus genes lusos, esquecem-se, por muitas vezes, que eles vêem do extracto mais baixo da Europa. Um outro ponto que deve ser salientado: os Portugueses não são caucasianos puros – muitos tem sangue Árabe e, por mais desconcertante que isto seja para muitos mulatos de Angola, também sangue negro Africano. Houve até um tempo em que o atraso Português era atribuído à suposta hibridação dos seus genes. O mongrelismo, não pode esquecer, também resulta em deficiências mentais e em ilusões de grandeza.
7. Sou Angolano – um indígena com raízes inalteradas, algo que me dá muito orgulho. Ascendi neste mundo através do meu próprio esforço. Já fiz todo o tipo de trabalho na vida incluindo, nos anos 80, sobreviver como empregado de uma discoteca em Lisboa onde os mulatos de Angola me trataram como se eu fosse lixo. Sim, limpar as pias dos brancos! Trabalhei na Alemanha, onde, não obstante a má reputação Teutónica não tenho queixas nenhumas – mesmo na Bavaria. Consegui instalar-me nos Estados Unidos onde pretendo continuar com os meus estudos e escrever sobre os grandes mitos de Angola.
8. Não pertenço a nenhum clã das redes de influência tradicionais Angolanas. Pertenço, porém, a um partido que adoro com todo o meu coração. Este partido chama-se – ANGOLA!» In Abreu Kussuya abreukussuya@yahoo.com

Epok acreditou que era uma boa análise desapaixonada sobre um assunto proibido. Ninguém gosta de o abordar. Será por isso que o reino está a ser destruído? Epok não tinha dúvidas sobre isso. O racismo camuflado destrói tudo. Inclusive as piranhas. Ah! Que se fodam os racistas! Antes que esta merda dê o berro, vou ganhar as minhas comissões na sobrefacturação, enviá-las para o estrangeiro, e depois que se matem uns aos outros. Epok despertou:
– Senhorita das pinturas… envie o chefe das cozinhas!
– …..
O homem entrou. Epok fingiu que não estava ninguém. Não se pode dar importância a esta gente. Ao mínimo sorriso tornam-se abusadores. Notou a sua imensa barriga, aliás como todos, incluindo elas que pareciam grávidas. As cozinhas reais eram uma bênção do rei. Todas e todos imensamente gordos. Aleluia meu rei. Epok afirmou de modo brutal:
– Diz lá… tenho mais que fazer que aturar-te!
– Chefe… os géneros acabaram-se!
Epok sentiu-se na cadeira de um avião de combate, que depois de perder o controlo ejecta-se.
– O QUÊ???

Gil Gonçalves
Upanixade
gil gonçalves foto 1

 
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